
Diego Grando é poeta, autor de Desencantado Carrossel, um livro em que o lirismo e a experimentação andam juntos para compor poemas de diferentes dicções e ritmos, mas com o intuito assumido de alcançar algum recôndito íntimo do leitor, comprometê-lo, não deixá-lo apático. Também está morando em Paris atualmente e cursa doutorado na Sorbonne, logo, a entrevista abaixo também foi concedida por e-mail.
Mundo Livro — Como se deu tua aproximação do universo literário? Cresceste em um ambiente que te facilitou esse acesso? E a descoberta da poesia, seguiu o mesmo caminho, foi posterior ou simultânea?
Diego Grando — Cresci num ambiente que valorizava a leitura, sobretudo por parte da minha mãe, que era professora, mas que não estimulava mais do que "ler é importante". Ou seja, não tive ninguém que me levasse em direção ao literário, então fui descobrindo aos poucos. O fato de ter tido poucos amigos talvez tenha contribuído com uma infância mais solitária, e isso também pode ter levado à leitura de ficção. A poesia veio primeiro pela música, que era muito mais acessível. Com as primeiras paixões e decepções amorosas, pareceu-me natural, como deve ser para a maioria, começar a escrever sobre. A ideia era escrever música, mas eu não tinha uma banda e sequer sabia tocar um instrumento, então ficava só na letra mesmo. Até que, lá pelos meus 15 anos, me caiu nas mãos uma coletânea de poemas do Drummond (era do meu irmão, 5 anos mais velho). Folheando-a, descobri que o Humberto Gessinger, que eu adorava, tinha um diálogo fortíssimo com ele (citações, visão de mundo, questionamentos, ironia). Aí algo se abriu para mim: comecei a descobrir uma família literária.
Mundo Livro — Tua poesia, ao menos a que li em Desencantado Carrossel, é marcada por um lirismo bastante ligado à memória, e ao mesmo tempo tem muita clareza de enunciação e de prosódia. Aceitas, em teus poemas, uma dimensão comunicativa da obra? Teus versos tentam se comunicar com o universo interior do leitor?
Diego — Não só aceito como não abro mão de comunicar, e isso é tanto um posicionamento estético quanto ético-político. Escrevo para compartilhar algo, seja uma sensação, um momento ou uma forma de ver o mundo (e colocar-se diante dele), e não simplesmente para confundir o leitor (embora uma dose de confusão seja necessária). Posso até dar um quebra-cabeça para o leitor, mas sou honesto e forneço todas as peças. Disso vem, por exemplo, a preferência pela primeira pessoa: não é por confessionalismo, que minha poesia passa a uma distância segura da biografia ou da mera "expiação das minhas dores", mas por instaurar direto essa dimensão comunicativa. Afinal, se há alguém falando, alguém pode querer ouvir. O modo, contudo, como se efetiva essa comunicação, eu não sei: se esse "eu" que aparece no poema vai ser tomado pelo leitor como um reflexo de si mesmo, ou como um "ele" qualquer, ou como o nome "Diego Grando" que aparece na capa do livro, isso eu não tenho como controlar. E nem quero: faz parte do jogo. A memória, sim, é um dos eixos principais da minha poesia. Mas não dá para confundi-la com a pura lembrança ou com a confissão: ela é trabalhada, retrabalhada e, em última instância, inventada. Só assim, a meu ver, que ela pode entrar no jogo.
Mundo Livro - Enquanto muitas vezes a forma de teus versos segue parâmetros reconhecidos pelo leitor, teus trabalhos já dialogaram com as artes plásticas na criação de "objetos-poema" como o poema inscrito em um balão ou o dado de faces poéticas. Teu recurso a esse tipo de experimento, contudo, me parece mais imbuído de ironia, mesmo de uma tentativa de tratar essa relação entre o objeto e a palavra de maneira lúdica. Te sentes um artista à vontade para experimentar sem que haja necessidade de um programa póetico/político como o das vanguardas do século 20?
Diego — Tenho consciência de que não há, hoje, um programa "oficial" sendo discutido, ao menos não um tão claro (ou maniqueísta) quanto o do período das vanguardas. O momento histórico, e também o literário, é outro; as questões que se colocam, portanto, também devem ser outras (mesmo que não saibamos quais são). O verso livre foi assimilado, assim como o cotidiano, a linguagem coloquial e, mais recentemente, o concretismo. Não é mais preciso discutir isso. O debate está, ou ao menos deveria estar, em outro lugar: o que fazer para a poesia retomar o seu espaço? Como conquistar leitores e alargar o universo de interessados em poesia? Há algo, sim, de político na minha visão, e respondo a isso produzindo minha poesia: sinto-me totalmente livre para fazer o que bem entender, seja me apoiando no verso mais tradicional, escandido, rimado, seja recorrendo a um jogo "concretista à minha maneira", com cubos, balões e o que mais estiver por vir. Procuro fazer uma síntese do que gosto, não tenho pretensões de tábula rasa. E isso aprendi com meu poetas preferidos: Drummond, que veio na esteira da geração de 22 e atravessou o século, conseguiu unir o clássico e o moderno, sem precisar fazer concessões nem soar como uma salada-de-frutas; Apollinaire, talvez o mais importante homem de vanguarda do século 20, estava sempre com um alexandrino na ponta da língua, mas nunca se tornou refém (nem da vanguarda, nem da tradição).
Mundo Livro — Aliás, alguns dos mais relevantes debates e polêmicas artísticas do século 20 se deram no embate entre escolas e estilos literários - algo hoje descartado. Ser de uma geração que não precisa estar filiada a um movimento para propor um debate representa mais liberdade ou de alguma forma isso reduz o diálogo entre os próprios artistas?
Diego — O problema é que muitas escolas ou estilos literários são construções posteriores, isto é, discursos produzidos, já com um distanciamento histórico, com a tentativa de compreender e organizar o passado. Isso não quer dizer, no entanto, que o passado foi de fato tão organizado quanto o discurso feito sobre ele. O simbolismo francês não é o simbolismo brasileiro, que, por sua vez, não é o gaúcho. A poesia marginal, ou não era tão organizada como a vemos agora, ou não era tão marginal quanto se dizia. Não sei, portanto, como seria a existência de um suposto movimento hoje em dia, nem se isso viraria debate, ou liberdade, ou pasteurização, ou caça às bruxas. Ou será que há (as oficinas literárias? a "geração blog"? a já extinta Livros do Mal?) e ainda não sabemos? Sei que eu, voluntariamente, estaria de fora.
Mundo Livro — Com quem dentre os escritores/poetas em atividade acreditas que tua obra estabelece algum diálogo, seja em temas, seja na forma?
Diego — Acho que há alguma proximidade (e também já me disseram isso), não sei se eu diria diálogo, com a poesia da Angélica Freitas. Enxergo, no livro dela, uma preocupação com o verso e sua sonoridade, um rigor quase clássico, apesar da aparente simplicidade, com o que me identifico. Acho que minha obra também vai por aí, mas ressalto que é uma semelhança casual: conheço-a há não muito tempo. Diálogo intencional, propriamente, eu estabeleço com o Gessinger (mas não acho que letra de música seja poema). No conjunto da obra dele há um sujeito muito forte, uma visão de mundo bem marcada e uma preocupação com a fabulação do texto (a primeira pessoa recorrente, a solução pelo paradoxo, a ironia, os jogos de palavras) que me influenciam e com as quais eu também gosto de jogar.
Mundo Livro — Conversando com outros entrevistados para esta matéria, expus minha impressão de que os novos autores parecem ter uma autonomia maior em termos de buscar espaços sem precisar ficar batendo na porta das grandes editoras - seriam uma turma mais disposta a fazer as coisas acontecerem. Me parece que isso é ainda mais claro na poesia, gênero que muitas vezes é apontado como "de baixa vendagem" ou para "público mais restrito". Qual tua opinião sobre esses dois pontos? A turma de hoje tem esse entendimento de que é necessário fazer por si mesmo? E a poesia é mesmo ruim de venda ou é assim rotulada por ser um dos gêneros que mais subvertem as regras do mercado?
Diego — Acho que é natural os novos autores tentarem fazer a coisa acontecer, e acredito que tenha sido assim com os mais antigos autores. Não acho, porém, que buscar espaços e bater na porta das grandes editoras sejam coisas excludentes, antes o contrário: quanto mais espaço se buscar (e conseguir) sozinho, mais chance de se chegar numa grande editora. Não que isso seja fácil nem tão natural assim, mas acho que é possível. Para a poesia, claro, a coisa é ainda mais difícil do ponto de vista editorial: há um discurso que diz que poesia não vende, que as pessoas não gostam de poesia, e por isso se tem menos interesse em publicar (embora as publicações independentes transbordem), quando se publica se divulga menos, aí a mídia dá naturalmente menos atenção, e acaba que não vende mesmo, e o ciclo se fecha e se repete. Isso deve (e pode!) ser mudado. A minha experiência com meu primeiro livro tem me ensinado muito: o Desencantado carrossel, menos de um ano depois de lançado, já caminha para o fim da edição. Ninguém saiu no prejuízo, e até está dando um dinheirinho! A repercussão foi interessante, o livro foi finalista do Açorianos, as pessoas dão um retorno dizendo que gostaram, e muitas delas acrescentam que "nem gostam muito de poesia". Foi preciso bastante trabalho, lógico, e insistência, e um balão com um poema para ser distribuído, um poema em vídeo para circular na internet, um corpo-a-corpo na divulgação e na venda. Agora, não podemos exigir que a poesia seja o gênero mais lido. Historicamente não é, e não o será. E isso não é problema. Assim como não podemos exigir que as pessoas prefiram o teatro ao cinema ou à televisão, ou a música erudita à música popular. A questão é conseguir achar um meio-termo e fazer com que as coisas coexistam. Mas isso é a minha experiência, claro, e a minha visão. Não tenho condições de dizer se isso vale para toda a "turma de hoje".

Bendito o que semeia livros. Quase não tínhamos livros em casa. Deus o livro, livrai-nos do mal. Neste espaço, o editor de livros de Zero Hora, Carlos André Moreira, partilha com os leitores informações, comentários, curiosidades, dicas, surpresas, decepções, perguntas, dúvidas, impressões, indiferenças e todas as outras tantas sensações proporcionadas pelos livros e pela leitura, esses prazeres tão secretos que merecem ser compartilhados.

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