Foto: Divulgação |
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Não sou dado a homenagens fúnebres, sobretudo às agendadas para sete dias depois do passamento. Na dúvida sobre a vida após a morte, prefiro honrarias testemunhadas pelo destinatário. Mas, por favor, peço uma concessão para falar de Tomás Eloy Martínez.
O escritor argentino morreu domingo passado, aos 75 anos, em Buenos Aires. A despeito da intimidade com a literatura, manifestada em livros como O Cantor de Tango e Santa Evita, foi como fazedor de jornais que Martínez se notabilizou na América hispânica.
Minha homenagem consiste na publicação de um trecho da conferência Para Onde Vai o Jornalismo, ministrada por Martínez em junho de 2005, em Bogotá, cujos detalhes estão no blog do professor Toni Piqué, lá do Master em Jornalismo.
Diz muito sobre a razão de ser dos jornalistas.
"O jornalismo não é um circo para exibir-se, nem um tribunal para julgar, nem uma assessoria para governantes ineptos ou vacilantes, mas sim um instrumento de informação, uma ferramenta para pensar, para criar, para ajudar o homem em seu eterno combate por uma vida mais digna e menos injusta."
Li hoje, 7 de fevereiro, a primeira das dezenas de correntes com mensagens de autoajuda remetidas insistentemente ao meu e-mail, apenas em 2010. O bom para a humanidade é que isto só acontece comigo. Nenhum de você sofre este dissabor.
Fui fisgado pelo título: Sete Por Cento, assim, por extenso, que é a quantidade de internautas chatos o suficiente para reencaminhar tais mensagens. Eu faço parte dos outros 93%, que não democratizam sentimentos padronizados.
Abri e se tratavam de 45 lições para, tchan, tchan, tchan, tchan... desfrutar melhor a vida. Deti-me numa overdose de clichês, dentre os quais um me saltou aos olhos. Dizia:
- O órgão sexual mais importante é o cérebro.
Só então vi que quem assinava o receituário para a vida feliz era uma americana de 90 anos.
A esta altura da vida, não seria o único?
*
Espero chegar até lá para descobrir.
Na seção Meia-Volta e Adiante! deste final de semana, relembro o dia em que descobri como os regionalismos da Língua Portuguesa podem influir na vida sexual das pessoas.
Não riam de mim, por favor.
A loira criminosa
Quem já deixou para trás a família e os amigos para tentar a vida em outra cidade, conhece a dor de uma solidão confusa, voluntária nem por isto indolor. A migração também nos custa a perda daquilo que chamo de afetividade geográfica _ o campinho de futebol da infância, a esquina por onde caminhava a primeira paixão e por aí vai. De uma hora para outra, por mais que seja bem-recebido, o sujeito se vê emocionalmente desorientado.
Experimentei tal sentimento enfurnado num apart hotel da Frei Estanislau Schaete. Talvez este texto ficasse mais interessante se, como os intelectuais e artistas exilados durante a ditadura, eu tivesse ruminado a saudade em Paris, Londres ou Moscou. Mas comigo foi ali na Água Verde mesmo.
Voltava da redação, um ambiente naturalmente vivo, e mergulhava na quietude de um quarto úmido, habitado por mim e pelos fungos nos rejuntes dos tijolos à vista. Deitava de barriga para cima, folheava um livro, mas gastava a maior parte do tempo olhando o vazio do teto. Lembrava saudoso dos meus pais e dos meus irmãos, com quem havia dividido dos todos meus 23 anos de então. Banzo puro, quase piegas.
A cozinha do apart hotel era coletiva. Gente com caixas de comida industrial congelada formava fila no micro-ondas. Na vizinhança, predominavam homens recém-separados e vendedores viajantes. Numa manhã de domingo, fui à padaria da esquina e voltei abraçado numa rosca. Desci ao refeitório para esquentar o leite e, no meio da algazarra masculina, notei uma loira quebrando a monotonia demográfica. Quando enfim o micro-ondas anunciou a fervura com um apito, estávamos sós. Eu e ela.
Fiquei confuso ao vê-la menear a cabeça, convidando-me para sentar. Aceitei. Engatamos uma conversa protocolar sobre o clima, falei de mim sem entrar em pormenores da solidão, temendo confundi-la com um tipo de cantada que se dá em mulheres protetoras. Falou-me que era do Alto Vale.
- O que vieste fazer em Blumenau? - indaguei.
- Vim abrir uma facção - revelou.
Cuspi o café, recolhi os nacos de roscas e, sem me despedir, corri para quarto. Ofegante, deitei na cama, confuso. Como ela confidencia planos no crime organizado a um jornalista? Temi sinceramente pela minha vida.
Aturdido, saí do apart hotel.
Aluguei um apartamento.
Fugi da loira.
*
Até hoje tenho curiosidade em saber se a loira do Alto Vale teve sucesso na indústria têxtil.
Texto publicado em 10 de setembro de 2008
O primeiro acidente na saída da Ponte do Salto depois das mudanças no trânsito, deflagradas domingo, mexeram com os nervos do colega Joel Marques, do Industrial aqui do Santa. Aturdido, custou a acertar o foco até registrar, com segundos nem de todo comprometedores de atraso, um videozinho do momento histórico e esperado. Foi à tardinha desta fumegante quarta-feira. O incauto motorista de uma caminhonete utilitária tentou fazer o trajeto de antigamente, convergindo à esquerda. Acabou sobre a estrutura de concreto que agora divide as duas pistas da Rua Bahia. Teve de ser acudido pelos frentistas do posto vizinho ao jornal.
Joel, nosso ágil e estouvado cinegrafista, teria ficado sem imagens se houvesse guardas em vez de cavaletes orientando os condutores sobre as alterações.
Foto: Gilmar de Souza |
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Depois de dezenas de meses de obras de preparação, finalmente mudou o trânsito nas imediações da Ponte do Salto, aqui onde fica o Santa. Digo finalmente mais pela angustiante espera do que pela crença na eficácia das alterações. Mas como só quem gosta de mudança é criança molhada de xixi, não vou destilar descontentamento sem antes dar, a mim e às autoridades de trânsito, um tempo de adaptação ao novo. Minha crítica se dirige à forma quase autônoma como uma reformulação de tráfego tão complexa foi implantada. Houve ausência de orientação e fiscalização.
Quando deparei com a nova ordem, segunda-feira pela manhã, somente dois guardas de trânsito, um deles de moto, bocejavam perto do trevo de acesso à Rua Fritz Müller, hoje sentido obrigatório para quem vai ao Centro. Na saída da ponte, onde agora só se pode rumar à direita, não havia uma viva alma a soldo da prefeitura para informar os incautos. Só um mudo cavalete.
*
Prova da omissão do poder público foi a sinalização improvisada pela população abandonada à própria sorte, cuja foto republico ali acima. Aliás, a respeito deste registro do colega Gilmar de Souza, ouçam o que me disse um leitor, por e-mail, no qual também pediu para ser preservado no anonimato:
“Fabrício, vendo a foto do Santa, senti saudades do tempo do extinto Ippub (Instituto de Planejamento Urbano de Blumenau). Explico. Esse projeto de circulação da Ponte Salto foi feito pelo Ippub. Se ainda houvesse Ippub, hoje (segunda-feira) pela manhã haveria pelo menos cinco técnicos acompanhando a implantação do projeto, avaliando e ajustando detalhes. Não ouvi nenhum secretário, diretor ou gerente vir a público explicar a mudança. Ah, maldita política. Aqueles que hoje estão à frente do planejamento, pelo que leio, apenas dão desculpas e transferem responsabilidades. Um projeto desta importância não deveria ser tratado assim.”
Também acho.
Texto publicado na página 19 do Santa de Papel de hoje
Nos comentários do post logo ali embaixo, voltaram a agredir a razão na defesa dos motoristas de ônibus. Uma vez revestidos da missão de transportar trabalhadores e estudantes, defendem alguns, estes profissionais estão alforriados do bom senso no trânsito e não devem, jamais, ter seu comportamento criticado. Acho tal raciocínio romântico e perigoso.
É romântico porque ninguém transporta pessoas por filantropia. Recebem, de um milionário sistema financiado por empresas e trabalhadores, um salário para tal. Por vezes, pelo teor da defesa, preciso reler o texto para confirmar se não maldisse a Madre Teresa de Calcutá por engano.
É perigoso, e muito, porque a nobreza da missão não dispensa ninguém da virtude. Por se acreditarem portadores de razões nobres, islâmicos arremessaram aviões contra prédios, generais latino-americanos torturaram e asseclas de Fidel fizeram o tempo parar em Cuba.
Portanto, gente, pelo bem de nossos filhos, não façam concessões éticas a quem quer que seja.
Precisava avançar e ficar parado assim? Precisava?Foto: Eu Mesmo |
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Ok, podem me chamar de pequeno-burguês de classe média que fica cozinhando o planeta com carros financiados em 60 prestações. Mas não farei vista-grossa a mais um transportador de operários que fica trancando os cruzamentos em Blumenau. Flagrei sexta-feira à tardinha este aí da foto acima, na esquina das ruas Bahia e Benjamin Constant, um endereço disputadíssimo pelos egoístas de plantão no trânsito. Já até avisei a Guarda sobre isto. Lembram? Lê aqui e aqui.
Repare na foto que o sinal já está amarelo. Pois bem. O semáforo para quem vinha pela Rua Bahia já ia fechar de novo e o tal ônibus não havia movido as rodas um centímetro sequer. Custava ter esperado a vez civilizadamente? O tráfego só não parou porque a turma que pretendia dobrar à esquerda se esgueirou, levemente na contramão, para seguir destino.
Eu sei que pilotos de carro de passeio também fazem estas malcriações. Mas, quando gente que ganha a vida no volante se comporta desta forma, é sintoma de doença social grave, da qual ainda muito iremos padecer.
Coisa mais feia é o ressentimento. Lá se foram mais de dois anos e ainda não perdoei uma mulher que me roubou 27 minutos de vida, tempo que, por mais que me esforce, não consigo recuperar. Numa tentativa de exorcizar a mágoa, republico a coluna que escrevi sobre esta ladra da existência alheia na seção Meia-Volta e Adiante! deste final de semana.
Ainda bem que isto nunca aconteceu com vocês, né?
A senhora do xampu
Uma ansiedade indomável se apodera de mim cada vez que dou por encerradas as compras no supermercado. Trêmulo, arquejante, com suor a escorrer pela face, lanço um olhar de rapina sobre os caixas. Procuro clientes menos afoitos, cujas necessidades caibam numa cestinha. Jamais entro em filas com esses sujeitos que enchem o carrinho como se estivessem esperando uma guerra.
Dias atrás, já em meio à histeria consumista de final de ano, lá estava eu, trêmulo, arquejante e com suor a escorrer pela face, tentando uma maneira rápida de quitar um saquinho de curry. É com este tempero de origem indiana que enfeitiço a meia-dúzia de ingênuos que me têm em boa conta na cozinha. Toda minha reputação gastronômica custa R$ 4,50, eis o segredo.
Vasculhei a área de caixas. Havia um burburinho desolador, gente se ombreando, carrinhos se batendo. Na de número 23, flagrei uma apreciadora de cachorro-quente. Deduzo isto porque ela carregava no cestinho um pacote de salsicha, seis pães de leite e um ketchup. Atrás dela, uma senhora com um frasco de xampu, desses para cabelos pintados. Senti um formigamento de excitação, custei a crer. Estava com sorte. Parei ali na 23 com meu saquinho de curry, assoviando Ivetinha, feliz da vida.
Quando o bip do caixa acusou a passagem do pacote de salsichas da primeira cliente da fila, a senhora do xampu virou-se e berrou para o corredor:
- Benhê, pode vir!!
Olhei para o mesmo lado e, daquele ângulo, não consegui ver o cônjuge da senhora do xampu. Estava desaparecido atrás da montanha de compras: carvão, peru, guarda-sol, protetor solar e outras miudezas. Pela quantidade de itens, voltaria da praia apenas em 2011. Novamente trêmulo, arquejante e com o suor a escorrer pela face, só enxerguei os contornos de sua cara (de pau) quando aquele contêiner de produtos estacionou diante de mim. Pelo menos teve a decência de pedir licença para roubar 27 minutos da minha vida.
Bem que a senhora do xampu poderia ter feito a fineza de me dar a frente, né? É Natal, pôxa
Texto publicado em 12 de dezembro de 2007
Nosso zagueiro alto e de olhos verdes faz embaixadas à beira da Lagoa MirimFoto: Leonardo Crizel/GEB |
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Como estatísticas de internet não servem de base científica, não vou reforçar a máxima de que quem gosta de homem bonito é homossexual, ao passo que mulheres preferem ricos, dentre os quais não se enquadraria um zagueiro do meu Brasil de Pelotas.
Mas publico a foto do Ney Santos, nosso novo defensor anunciado com este deslumbramento aqui, atendendo pedidos dos meninos frequentadores do blog.
A título de curiosidade, nenhuma mulher se interessou em ver o sujeito.
E aí? O cara é bonito?
Há na crítica cinematográfica um lugar-comum, carregado de preconceitos como todos os lugares-comuns, segundo o qual jamais uma refilmagem supera o filme original. Nem mesmo a evolução tecnológica é capaz de revigorar uma história contada com frescor, na pulsação de um roteiro ainda virgem.
Pois nestes dias de licença-médica, descobri uma exceção. Trata-se de um documentário sobre a autoestima dos gaúchos, meus conterrâneos, transformado em ficção numa refilmagem. Talvez por isto, o texto e a interpretação deste segundo filme é infinitamente superior ao original.
Este é o documentário original:
Esta é a refilmagem, já ficção, inclusive com o figurino europeizado:
E aí? Qual dos dois têm a narrativa mais rica?
Com humor e sem moralismo, o editor executivo e colunista da penúltima página do Santa às quartas-feiras, Fabrício Cardoso, mostra como pequenos gestos diários, muitas vezes automáticos, dizem muito sobre o povo que somos. Fale com o blogueiro
fabricio.cardoso@santa.com.br

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