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Jesse era um garoto muito problemático, fracassava nos estudos, nada parecia realmente despertar seu interesse. Seu pai, um crítico de cinema canadense, acabou propondo-lhe uma solução ímpar para seu problema: poderia largar a escola se topasse participar de um “clube do filme”. Ele selecionaria três filmes por semana, programados de forma a dar ao rapaz uma idéia da sétima arte e de sua história. Jesse topou e passou a morar com o pai. Estabeleceram regras de comportamento e partiram para os trabalhos, no sofá da sala. David Gilmour descreveu essa experiência ímpar no livro Clube do Filme (Ed. Intrínseca).
É uma leitura imperdível: em primeiro lugar, porque ele nos indica uma série de títulos, dos quais aproveitamos as lições que ele dava a Jesse, ensina a ver detalhes, um enfoque, uma luz, uma cena, explica a importância histórica da obra; em segundo lugar porque é uma lição de paternidade. A seleção dos títulos ocorria de acordo com os momentos do garoto, os debates também obedeciam a essa sensibilidade. Gilmour não fez uma invasão alienígena intelectualóide no cérebro de seu filho, por isso o garoto melhorou, ganhou em capacidade de expressão, passou a fazer planos.
Creio que não foram os filmes em si os responsáveis pela transformação, eles foram imprescindíveis porque constituíram motivo de encontro entre pai e filho. Porém o cinema é mais do que algumas horas de distração conjunta: é compartilhar sonhos e pesadelos. Assistir filmes e conversar sobre eles é transmitir aos filhos algo além do que compreendemos conscientemente. É melhor do que dar sermões (os quais também são necessários, vez que outra), pois trata-se de formar num filho algo mais profundo e verdadeiro do que a racionalidade pode fazer.
Gilmour morria de medo de estar fazendo uma enorme besteira. Como mãe, eu jamais teria nem metade de sua coragem, e muito menos a paciência infinita que ele demonstrou frente à lentidão do crescimento de Jesse, face aos momentos de derrota e desânimo. Quer por louco, quer por visionário, ele ousou, e com isso, mais do que lições de estética, ou de história da arte, fez seu papel de pai.
Por mais que nosso tempo invista na fantasia de termos filhos poderosos, libertos das limitações de seus pais, a transmissão entre as gerações ainda é a maior fonte de motivação para eles. Gilmour compartilhou suas fantasias com o filho, assim como essa experiência íntima de paternidade com seus leitores. Sorte que existem as férias para aprender tanto e de forma tão interessante, tempo fundamental para nós e para Jesse. Aproveite.
Um telefonema da minha tia tirou-me um pouco da impotência frente às imagens do desastre haitiano; ela é voluntária e está embarcando segunda feira para lá. Se alguém da família vai é como se eu fosse um pouquinho. Profissional madura, já esteve no Timor e trabalha na saúde pública, mas nunca viu o que provavelmente lhe espera: um hospital de campanha onde vai anestesiar para amputações. Parece que as guerras mundiais não acabaram, transmutaram-se em catástrofes, epidemias e miséria endêmica. Invejo-a por ser útil longe de casa.
Ao definir o que é um sobrevivente, Elias Canetti observa que é aquele que permanece de pé, frente ao outro que jaz. Diz ele: “é como se anteriormente tivesse havido uma luta, e o próprio sobrevivente houvesse abatido o morto”. O amontoado de corpos dos haitianos nos invade apenas por imagens, é inodoro, evitável. Mas não ignoremos, que esse confronto coloca-nos na posição de sobreviventes: que bom que não foi aqui, que bom que não foi comigo. Frente a isso, a luta cotidiana que se trava no Brasil para sobreviver à violência urbana parece fichinha, já que nossa guerra civil é sorrateira, irruptiva. Mas a cada dia em que um desabamento, uma inundação, um massacre entre miseráveis ou um terremoto revelam nossa fragilidade, tornamo-nos mais sobreviventes ainda, queiramos ou não.
Um terremoto é uma catástrofe natural, ninguém tem culpa! Mas, quando isso ocorre num dos lugares mais miseráveis do mundo, a desgraça se potencializa, a morte se traveste de peste, multiplica-se
Um sobrevivente é incapaz de ignorar que tudo pode ruir ou desaparecer, dependendo do azar ou de uma presença de espírito, a qual nem sempre é suficiente. Nosso mundo é frágil, fundado sobre uma miséria de proporções endêmicas, de desperdício imensurável. Pós revolução industrial acreditou-se na prosperidade natural dos negócios e da tecnologia. O Haiti nos arranca desse sonho ingênuo, e com ou sem anestesia, o custo da sobrevivência desse modo de funcionamento requer amputações, a miséria não é casualidade.
Cresci entre velhos que carregavam a guerra e o holocausto em suas memórias. É duro pensar que é uma questão de sorte, de acaso, estar ou não no lugar e na hora onde tudo perde o sentido. Meu coração está com os milhares de voluntários no Haiti, a solidariedade é o único contraponto da destruição.
Sigoruney Weaver voltou ao espaço, agora como uma cientista interplanetária, mas desta vez o Alien somos nós. O que já era sugerido nas experiências anteriores do diretor James Cameron agora é explícito: os homens, com sua voracidade capitalista, perderam totalmente seus resguardos morais e, principalmente, o equilíbrio. Avatar, o filme, com ou sem 3D, é uma experiência estética que não desaponta a quem gosta de mundo mágicos.
Para viabilizar a extração de um minério precioso para os terráqueos no planeta Pandora, organizou-se uma pesquisa na qual alguns humanos conectavam-se a seres similares ao povo local, controlados mentalmente: os avatares. Necessitavam conhecer melhor aquela civilização que resistia a qualquer negociação: não havia nada que pudesse ser ofertado a eles que estivessem dispostos a trocar por um pedaço da sua terra. Os cientistas descobriram que aqueles seres azuis, com rabo e feições felinas, têm tesouros que sintetizam nossos sonhos românticos, e que supomos que perdemos: a conexão com o meio ambiente e o grande coração do bom selvagem.
O herói do filme é gêmeo do que originalmente treinava para conduzir um avatar, mas morreu. Ao contrário do irmão cientista, ele é um soldado, mas está paralítico. No corpo de seu avatar, pode executar as tarefas que fazem parte da formação de um guerreiro Na’vi, numa mobilidade que contrasta com suas pernas inúteis da vida real: saltar entre as árvores, caçar, domar e voar em dragões alados. Como ele, estamos paralisados pela tamanha confusão que fizemos, criando cidades monstruosamente artificiais, sofrendo castigos climáticos crescentes, enquanto nossa única atitude não passa de separar um pouco de lixo. Desse jeito, parece melhor mesmo abandonar esta carcaça inútil que é nossa civilização e começar tudo de novo, como um povo caçador-coletor, capaz de uma cultura coletiva não competitiva.
O novo campeão de bilheteria e de tecnologia do entretenimento é um grito ecológico. Nossos sonhos coletivos das telas já não se bastam com máquinas, eles começam a ser mais orgânicos, amazônicos. Isso pode muito bem apontar uma guinada: no futuro deixaremos de ser colonizadores ensandecidos de nosso planeta e buscaremos algum equilíbrio entre nós e com o meio ambiente. Ou numa leitura mais pessimista: a possibilidade de uma relação não selvagem entre os humanos e com seu mundo mudou-se definitivamente para Pandora, um planeta onírico. Na vida real, restaremos aqui, paralíticos, beligerantes e obtusos.
Sigoruney Weaver voltou ao espaço, agora como uma cientista interplanetária, mas desta vez o Alien somos nós. O que já era sugerido nas experiências anteriores do diretor James Cameron agora é explícito: os homens, com sua voracidade capitalista, perderam totalmente seus resguardos morais e, principalmente, o equilíbrio. Avatar, o filme, com ou sem 3D, é uma experiência estética que não desaponta a quem gosta de mundo mágicos.
Para viabilizar a extração de um minério precioso para os terráqueos no planeta Pandora, organizou-se uma pesquisa na qual alguns humanos conectavam-se a seres similares ao povo local, controlados mentalmente: os avatares. Necessitavam conhecer melhor aquela civilização que resistia a qualquer negociação: não havia nada que pudesse ser ofertado a eles que estivessem dispostos a trocar por um pedaço da sua terra. Os cientistas descobriram que aqueles seres azuis, com rabo e feições felinas, têm tesouros que sintetizam nossos sonhos românticos, e que supomos que perdemos: a conexão com o meio ambiente e o grande coração do bom selvagem.
O herói do filme é gêmeo do que originalmente treinava para conduzir um avatar, mas morreu. Ao contrário do irmão cientista, ele é um soldado, mas está paralítico. No corpo de seu avatar, pode executar as tarefas que fazem parte da formação de um guerreiro Na’vi, numa mobilidade que contrasta com suas pernas inúteis da vida real: saltar entre as árvores, caçar, domar e voar em dragões alados. Como ele, estamos paralisados pela tamanha confusão que fizemos, criando cidades monstruosamente artificiais, sofrendo castigos climáticos crescentes, enquanto nossa única atitude não passa de separar um pouco de lixo. Desse jeito, parece melhor mesmo abandonar esta carcaça inútil que é nossa civilização e começar tudo de novo, como um povo caçador-coletor, capaz de uma cultura coletiva não competitiva.
O novo campeão de bilheteria e de tecnologia do entretenimento é um grito ecológico. Nossos sonhos coletivos das telas já não se bastam com máquinas, eles começam a ser mais orgânicos, amazônicos. Isso pode muito bem apontar uma guinada: no futuro deixaremos de ser colonizadores ensandecidos de nosso planeta e buscaremos algum equilíbrio entre nós e com o meio ambiente. Ou numa leitura mais pessimista: a possibilidade de uma relação não selvagem entre os humanos e com seu mundo mudou-se definitivamente para Pandora, um planeta onírico. Na vida real, restaremos aqui, paralíticos, beligerantes e obtusos.
Nunca acreditei que os homens fossem de Marte e as mulheres de Vênus. Devido à minha natureza beligerante, acho que sou mais Marte. Se tivesse que escolher planetas para os sexos, destinaria toda a espécie feminina a Marte, graças à agressividade intrínseca e velada da relação entre nós mulheres. Quanto aos homens, não os identificaria com Vênus, porque nas questões do amor nunca serão nativos de planeta nenhum. Talvez os destinasse - por que não - à própria Terra, afinal andam tão desinteressados de grandes transcendências.
Como nós, eles também se estranham entre si quando algum tenta sobressair-se aos outros, justamente porque são uns exibidos profissionais. Além disso, há a disputa pelo cargo de chefe da matilha, que inclui vários rituais, que podem envolver objetos corpóreos e incorpóreos, que serão exibidos, medidos, compartilhados e permutados, conforme a necessidade do momento.
Da diferença entre os sexos, cada vez mais sei que pouco sei. Mas encontrei no youtube alguma resposta para tranqüilizar minhas inquietações: pode ser acessado digitando “cérebro masculino e feminino” ou http://www.youtube.com/watch?v=RLbOuHX8rMA . Trata-se da apresentação de um humorista americano que explica como a cabeça do homem é composta de caixinhas cuidadosamente separadas, onde tudo está classificado, nada se toca, nem se mistura; enquanto a das mulheres mais se parece com a internet, onde tudo se comunica, se interpenetra, e nada se hierarquiza. Por isso as mulheres podem executar várias tarefas eficientemente ao mesmo tempo, além de tratar todos os assuntos simultaneamente sem perder o fio, para desespero completo de seus parceiros.
Essa classificação é interessante, mas fiquei mesmo encantada com aquela que o humorista declarou ser a caixa predileta dos homens: a “caixa do nada”. Ela é vazia, óbvio, e é em seu interior que eles se refugiam quando exaustos, lá eles zapeiam, assistem futebol, pescam, lêem jornal, bebem cerveja ou consertam coisas.
Quando contei dessa caixa a uma amiga, ela exclamou: “que inveja do pênis que nada, eu tenho inveja é da caixa do nada!” Olhando de perto, na verdade não existe contradição entre essas duas invejas: é justamente porque os homens têm um lugar no mundo há milênios que eles podem se dar ao luxo de reduzir-se a nada. Quanto a nós, inquietas e inseguras de ocupar os lugares visíveis, novatas da ribalta, ainda alienígenas no mundo externo ao lar, não podemos dar-nos ao luxo de desaparecer. De natal, eu quero uma “caixa do nada”!
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Duas semanas atrás, a jornalista Cris Gutkoski escreveu sobre o seriado House neste caderno. Não é réplica nem espero tréplica, é apenas continuação. Gostei do artigo, gosto da série, então emendo umas linhas que espero estejam à altura dele. Não tenho o mesmo entusiasmo de fã com a série que a Cris, mas, como ela, penso que o seriado dá mesmo o que falar.
House é uma série de TV americana centrada na personagem que lhe dá nome, ou seja, o Dr. House, cujo seu sucesso o coloca acima das outras, e creio que essa empatia do público não é gratuita. O esquema é simples, House é um médico especialmente brilhante que só se dedica a casos que lhe desafiam a inteligência. A cada episódio vemos a o doutor encontrar a saída dentro de um labirinto de sintomas que não fazem sentido. Em quase todos, ele arranca alguém dos braços da morte, sempre quando quase já é tarde demais. Não espere um médico bonzinho e compreensivo, House é dedicado, mas é o mais mal-humorado, antipático e grosseiro médico da história da TV, e arrisco, do cinema. Com os que lhe são próximos é ainda pior, maltrata a todos que ama.
De onde provêm tanto entusiasmo com esse misantropo? Cris lembrou-nos do conforto do reencontro com os mesmos personagens que esse formato parecido com a novela nos traz. Gostaria de centrar na análise da personagem, acho que ele é o grande achado. Em primeiro lugar temos um enredo policial, ao modo Sherlock Holmes. A fórmula é a mesma das histórias policiais, só que o inimigo oculto é a doença traiçoeira. Ela não mostra sua face diretamente, esconde-se no corpo sofredor do paciente.
Como nos mistérios policiais, a busca de House visa reunir indícios mínimos e pela via da dedução chegar à conclusão, à revelação da doença culpada. A cura é uma mera conseqüência, apenas um epílogo da aventura da descoberta. Todo o aparato tecnológico de ponta está à disposição desse médico detetive que revira as nossas entranhas pedindo mil exames até encontrar o mal insidioso. Não deixa de ser irônico, que no mundo real os médicos são tão mais respeitados quanto menos exames necessitem para chegar a um diagnóstico, usando a cabeça no lugar das máquinas. O que o paciente tem a dizer sobre o mal que lhe aflige em geral é considerado bobagem, mentira. Para House são os sintomas do corpo que contam.
Mas esse detetive é muito particular. Ele teve um coágulo na perna mal diagnosticado e quase a perdeu, e depois disso vive num inferno de dor crônica que o leva a ser dependente químico de analgésicos fortes (geralmente Vicodin) e a andar de bengala. Só quem teve uma dor dessas pode saber o mau humor que brota dessa situação, e a desesperança que é acordar todo dia com essa amiga indesejável agarrada a um membro. Essa posição lhe faz ficar num lugar único, ele é médico e paciente ao mesmo tempo. House representa a onipotência da medicina, mas tem o fracasso dela inscrito no corpo, ele não tem cura, apenas alívio. Ele prescreve remédios e os toma o tempo todo. Ele detêm o conhecimento sobre as doenças, mas está subjugado a uma. Ou seja, ele é médico, mas é um de nós, ele sabe o que é sofrer.
Os antropólogos e folcloristas o classificariam como um trickster, ou seja, aqueles seres que embaralham as classificações justamente por estarem nos dois lados. Por isso mesmo nunca sabemos o que esperar dum trickster, ele pode nos tratar mal ou nos tratar bem, pode nos roubar ou nos dar um pressente, nos bater ou nos tirar duma enrascada. Sua essência é a imprevisibilidade: esse é House.
Freud estava certo quando dizia que viveríamos tempos hipocondríacos, nunca a preocupação com o corpo foi tão grande. Transformamo-nos em babás eternas de nosso corpo frágil e entre esses cuidados obsessivos com a saúde está o pânico da doença. Partindo desse zelo, para desenvolver uma hipocondria, esse tipo de paranóia invertida, onde o perseguidor vem de dentro do próprio corpo, é só um curto passo. O inimigo já não está no mundo, mas se esconde dentro de nós, esperando um momento de descuido para nos ferir, portanto todo cuidado é pouco.
Os seriados que envolvem medicina aproveitam essa onda, falam dos nossos medos, contrabandeiam a ilusão de conseguir mais informação sobre as doenças. Hoje os médicos em seus consultórios precisam discutir os diagnósticos com pacientes formados na prestigiosa Google Medical School. Esse “saber” sobre a doença fornece uma idéia de controle, como um espantalho destinado a afugentar a morte, ou ainda, na idéia da Cris: “como se a morte, fosse, também ela, uma ficção”.
O establishment das ciências médicas hoje é de um determinismo materialista radical. A homossexualidade é genética, o autismo idem, depressão é um desarranjo da química cerebral, os nossos antepassados com maior capacidade de retenção de energia foram selecionados e isso nos faz sermos obesos, e por aí vamos. A experiência de vida e a nossa família pouco contam, seríamos pré-destinados, portanto é inútil pensar em nossa trajetória e em nosso passado. O que acaba sendo uma boa notícia: afinal, não seríamos responsáveis por nada. Aproveitem! Não somos sujeitos de nada e somos “assujeitados” a tudo. Das idiossincrasias do desejo sexual, passando pela agitação motora, chegando ao comportamento serial killer, de tudo, mas tudo mesmo, de alguma forma, a biologia daria conta.
Em House isso vai ao paroxismo, os pacientes dele nunca são conversivos, hipocondríacos, psicossomáticos, raramente têm quadros auto-imunes, tampouco as fibromialgias com sua névoa de indefinição comparecem, nem ao menos uma enxaqueca idiopática o questiona. Deve haver uma competente triagem prévia no Princeton-Plainsboro Teaching Hospital, que afaste esses pacientes, que tantas dores de cabeça dão aos clínicos. Seus pacientes realmente têm algo no corpo, às vezes até a alma sofre, mas o bisturi resolve quase tudo, a subjetividade nunca conta nem é causa de nada.
Em várias mitologias, os seres que mostram uma assimetria corporal, especialmente no andar, são os que de alguma forma já estiveram do outro lado: conheceram o mundo dos mortos, voltaram e no seu corpo ficou uma marca dessa viagem. Será que é só coincidência House mancar? Ou é mais uma marca de que ele simboliza um mediador dos mundos, aquele que conhece a passagem e escolhe (nesse caso protege) quem passa? Enfim, acredito que a personagem oculta desses dramas é a morte e House é seu competente toureiro. Nós o amamos como a um anjo torto da morte, afinal, nunca se sabe, ele pode nos dar mais uns dias.
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Apesar de ser acusada de leviana e superficial, houve poucos que levaram nossos desejos tão a sério como ela. Acreditamos que a vida é curta para ser desperdiçada numa rotina medíocre, que emoções fortes garantiriam uma existência que valesse a pena. Ela tomou sonhos por desígnios e, por ser mulher, coube-lhe a aventura da paixão, a experiência venturosa do sexo. Como a realidade que lhe tocou negou-lhe as oportunidades de cortesã, foi nos livros que ela encontrou um cenário para seus sonhos. Como suas heroínas, em fantasia circulava pelos salões, vivia romances tórridos num ambiente opulento.
Na vida real, entre um jovem escrivão e um nobre decadente, arejou sua existência provinciana com algum sexo e muitos devaneios. Comprou vestidos caros, foi uma Cinderela devassa enquanto pôde. Mas seus príncipes a deixaram em farrapos, descartaram-na assim que descobriram fazer parte do delírio amoroso de Emma Bovary. Endividada, solitária e frágil, ela despertou para uma realidade que jamais havia vivido, afinal, ela era habitante dos sonhos, os seus e os nossos.
Emma era personagem dos romances que lia e não sabia ser outra coisa. Tomou veneno, morreu dolorosamente, perdendo também o direito a seu último desejo, que era simplesmente adormecer. Ela não está sozinha nessa empreitada de confundir a vida de celulose com a parca realidade. Quer seja em celulose, celulóide ou sinais digitais, aprisionamos alguns seres humanos numa existência romanceada, a serviço de nossa alienação. Não é à toa que Emma deu origem ao termo “bovarismo”, que designa todos aqueles que se resistem a desembarcar de suas fantasias. Como Madame Bovary, as pessoas, que se engajaram na tarefa de encarnar personagens não têm como sobreviver à vida tridimensional.
Julio Cortazar, num conto chamado “Queremos tanto a Glenda”, apresenta-nos um grupo de admiradores do trabalho de uma atriz, cuja carreira perfeita os unia. Quando ela resolve voltar às telas, depois de uma retirada de cena que eles julgavam ter sido perfeita, maculando sua imagem de ídolo, eles decidem colocar o ponto final com as próprias mãos: “na altura inatingível onde a havíamos exaltado, a preservaríamos da queda, seus fiéis poderiam seguir adorando-a sem míngua; não se desce vivo de uma cruz.”
Só para dizer que o fim da bela morena Leila Lopes, uma Leila nada Diniz , para sua desgraça, foi um sacrifício da personagem. Não fomos nós que a matamos, como os fãs de Glenda, mas talvez o bovarismo da nossa época não a tenha ajudado.
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Passei por um homem jovem e vi em seu braço forte, como o dos marinheiros de cartoon, uma tatuagem: era um nome de mulher, mas no outro braço havia um nome de homem. Não era um bissexual proclamando sua condição na pele, era um pai. Hoje em dia, numa celebração ao único amor certamente eterno, muitos tatuam o nome de seus filhos.
Tatuados ou não, filhos são indeléveis, seu nascimento é uma marca inesquecível. Mesmo que um pai ou uma mãe acabem não criando seus filhos, afastando-se deles, sentirão para sempre sua existência, da mesma forma como se sente um membro fantasma, um membro amputado que ainda dói. Por vezes até os não nascidos, gestações perdidas ou interrompidas, também deixam marcas e fazem aniversários.
Apesar disso, é difícil acreditar que os filhos recém nascidos são uma realidade. Podemos ficar horas olhando a criatura adormecida, como se ela fosse um sonho do qual vamos acordar. Quando crescem, ainda parece incrível que “mamãe” e “papai” sejamos nós. Em certos momentos da infância das minhas filhas esperava que um adulto de verdade aparecesse para assumir a função. Ocorre que as tarefas maternas e paternas sempre transcendem os que se ocupam delas, pois, mais do que práticos, são atos simbólicos, que assumem contornos míticos, ninguém está à altura.
Os pais que tatuam o nome dos seus filhos talvez saibam disso e querem a garantia da perenidade do vínculo no seu corpo. Tatuar-se o nome da pessoa amada é como impor uma certeza de fora para dentro, pode também ser uma declaração pública de pertença, como uma aliança que não sai do dedo. Os filhos sempre nos tatuam, nos possuem, queiramos ou não.
Dizer que os filhos são um amor que se impõe de fora para dentro não significa que falte em nós o júbilo de esperá-los, a felicidade de tê-los, apenas, inicialmente, o que amamos é a idéia de um filho que é sonhado. Já aquele nasce, é alguém que ainda teremos que trabalhar muito para conhecer e aprender a amar. Seu modo de ser, de se parecer e os desafios que seu crescimento nos impõe, nos transformarão pelo resto da nossa parca existência: de fora para dentro. Nunca estamos realmente preparados para os choros, as doenças, os conflitos com amigos, os namoros, as dificuldades na escola, os dilemas vocacionais, as separações das viagens, a saída de casa.
Vamos tocando e improvisando. Frente a tanta incerteza, não se estranha que se recorra à tatuagem para firmar um vínculo mutante, denso, pleno de ambivalências e mal-entendidos.
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Faz tempo que Mário Quintana não nos visita. Jamais me ocorreu que o
faria “twittando”. O twitter é uma rede de pessoas, ligadas pelos seus
celulares e ou computadores que trocam mensagens de até 140
caracteres. Para tornar-se “seguidores” uns dos outros, os usuários do
twitter se inscrevem uns com os outros, se “seguem”, para usar a
terminologia deles. A pergunta que aparece antes do campo onde
escrevemos a mensagem que será enviada a nossos seguidores é: o que
você está fazendo agora? No começo e ainda em grande número, as
respostas foram literalmente banais: “estou curtindo uma gripe”,
“cheio de trabalho” ou “indo encontrar minha linda namorada”, isso
entre recomendações ou críticas de eventos culturais, locais de lazer,
restaurantes e produtos variados.
Óbvio que o twitter virou o fofocódromo prioritário, nunca a
divulgação de algo se espalhou tão rápido. Fora isso, em momentos
políticos graves, é uma forma incontrolável de divulgação do que quer
ser ocultar. Os recentes protestos no Irã foram organizados por
twitter.
Fabrício Carpinejar tomou a chatice do dispositivo do twitter de
assalto combatendo-a com poesia, humor e irreverência. Para provar que
em comunicação nada se perde, tudo se compartilha, as mensagens que
ele foi divulgando ao longo de alguns meses estão compiladas em forma
de livro: www.twitter.com/carpinejar, Ed. Bertrand Brasil. Acessível
para estrangeiros digitais ou, como eu, amantes do papel.
Embora também escreva crônicas, Carpinejar, como Quintana, sempre foi
poeta, e ambos grandes frasistas. Conhecendo-o pessoalmente sei que
ele é essas duas coisas, pois não existe banalidade da qual ele não
extraia uma tirada e compartilhe com os próximos. Para nossa sorte
Fabrício vaza poesia: “Eu me inundo por bem pouco.”; “Mexa as chaves
no bolso para despertar uma porta.”; “Não quero alma gêmea, isso é
incesto.”; “Quando morto, não venha cobrir minha cabeça com lençol.
Desejo jornal sobre o rosto, morrer bem informado.”; “Madrugada em
claro não traz clareza.”; “O tédio é uma tristeza que não sonha”. No
twitter apenas ele aumenta o alcance disso que já fazia.
A ninguém interessa se eu, você, ou outros mortais vamos dormir, é
insignificante. Tampouco importa o que Carpinejar vai fazer. Mas
depois que ele escreveu que “arrumar a cama é preparar um envelope
para nos guardar”, tenho menos medo da insônia. Vai ver que poesia é
isso, upgrade da vida cotidiana, transcrição das catacumbas pessoais,
legibilidade do indigesto. Com Carpinejar esvazio a saudades de
Quintana.
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UNISINOS- Como entender o fascínio que alguns jovens têm pela morte? Que aspecto da morte pode fascinar um ser no auge da vida? É possível falar em um “flerte” entre suicídio e adolescência?
Mário Corso - Eu não acredito que o fascínio pela morte seja maior na adolescência, apenas este encontro é mais perigoso. Uma psicanalista francesa, F. Dolto, usa uma imagem para falar da adolescência que me parece muito precisa, ela fala de “complexo de lagosta”. As lagostas, por possuírem um exoesqueleto, têm a necessidade de trocá-lo para poder seguir crescendo, e então durante um tempo em que abandonam a carapaça a até que a nova endureça estão desprotegidas de ataques de certos predadores, estão mais vulneráveis. A imagem é perfeita para descrever a adolescência, são eles que estão mais frágeis e então são presas mais fáceis de tudo, logo, também da morte.
Um dos mecanismos mais comuns usados quando estamos fracos é a soberba, a arrogância e um pouco de violência, isso denota não uma força, mas uma fragilidade, os adolescentes usam isso para compensar seu momento frágil e nos parecerem mais fortes. Nos enganam direitinho. Dentro desse quadro está também a onipotência, a “certeza” (quase delirante, é claro) de que nada vai me acontecer, que tenho sorte ou o “corpo fechado”, esse comportamento aumenta as chances de risco nessa idade da vida.
Se você observar crianças brincando, jogando videogame, verá que a questão da morte também está colocada. È possível morrer muitas vezes num jogo. Esse jeito de brincar é uma forma rebaixada de filosofar sobre a vida e a morte, a criança usa os mecanismos básicos do qual dispõe, mas a questão sobre o que é a vida e a morte já está sendo colocada, basta saber ouvir. Na idade adulta, alguns neuróticos obsessivos vivem para evitar a morte, enquanto para os hipocondríacos atrás de suas questões com o corpo e a doença está a morte. Não há idade privilegiada para ocupar-se dela. Acredito que o suposto flerte adolescente não é exatamente com a morte, mas com o sentido da vida. È isso que ele quer saber: colocar-se a questão do suicídio é apenas a versão terrorista para perguntar aos seus adultos sobre uma boa razão para viver.
Ocorre que na adolescência muitas questões sobre a vida, seu valor e para o quê mesmo vale a pena viver, são colocadas de maneira dura e não encontram nem respostas, nem sequer adultos querendo falar disso.
Mas quando vocês na pergunta colocam que a adolescência é o auge da vida estão falando de que? Será que não existe um equívoco entre o auge físico e outras coisas? Certamente de sabedoria podemos dizer que não é o auge, eles podem ter boas perguntas, o que não é pouco, mas só engatinham em respondê-las.
UNISINOS- Como o tema da morte aparece nas discussões virtuais, nas redes sociais da internet entre os jovens?
Mário Corso – Aparece justamente da pior forma por que não existe outro espaço para falar disso. A escola não é um lugar de reflexão (ou pelo menos raramente) é apenas um lugar de transmissão de um saber pré-determinado pelo que vai cair num vestibular ou num enem futuro. Quando falam da volta da filosofia nas escolas espero que seja algo mais que uma cadeira de história do pensamento filosófico, mas dum espaço em que adultos topem filosofar sobre questões que os jovens queiram falar. Não adianta reclamar que eles vão ficar falando sobre suicídio na internet se nós não falamos com eles sobre a morte e o sentido da vida. Além disso, falar sobre suicídio não necessariamente é falar sobre a morte, mas pode ser uma maneira indireta e rebaixada de falar do valor da vida. Falta alguém com mais experiência e sabedoria que conduza as questões. A morbidez é só aparência, ou algum que outro adolescente que queira aparecer para dizer que não tem medo de nada, afinal, fica caminhando na borda do precipício. Essa “coragem” também faz parte desse drama, na verdade, coragem mesmo precisamos é para viver, não para ir embora, isso é fácil.
As famílias também não estão num momento que consigam falar com os jovens, justamente por idealizarmos essa idade da vida como “auge”, temos dificuldade de falar com eles. O homem atual é meio perdido de valores e de certezas, por isso se encolhe nas discussões. Precisamos incentivá-los, afinal, a transmissão da dúvida eu já acho grande coisa, as pessoas que duvidam geralmente são mais sábias e fazem menos bobagens que as que têm certezas.
UNISINOS - O medo da morte aumenta nos jovens da sociedade atual, marcada pela violência e pela insegurança?
Mário Corso – Vou dar uma resposta que serve menos para o Brasil, mas que de alguma forma nos alcança. Ser jovem num país sem guerra é mais fácil. Na Europa da virada do XIX e depois nas duas guerras mundiais, os adolescentes era a massa dos soldados e morriam aos milhares. Especialmente a primeira guerra mundial matou uma parcela enorme da sua juventude, uma geração foi mutilada. Será mesmo que a nossa época é difícil para os jovens? Aqueles sim que tinham pavor de morrer a toa, boa parte da contracultura começou num protesto para não ir à guerra do Vietnam, quem ia às passeatas eram os jovens que não queriam ir morrer lá por uma causa bem abstrata. As civilizações sempre usaram os jovens para soldados por não terem laços para frente, não são pais ainda, temem menos a morte por isso, se arriscam mais, sabem que não deixam ninguém dependendo deles. De certa forma isso vale também para a situação civil, os jovens tem menos laços de compromissos e podem arriscar mais.
UNISINOS - Como o jovem reage diante da morte de outro jovem?
Mário Corso – Não existe uma resposta padrão pelo adolescente. Cada uma faz como pode, desde o desencadeamento de síndrome do pânico até uma indiferença, que na verdade é uma impossibilidade de elaborar, e que joga para frente, para quando conseguir. O que parece frieza é na verdade uma impossibilidade de digerir, é como se não houvesse um software que decodificasse a situação. Vejo adultos em análise finalmente conseguindo chorar a perda de amigos da adolescência que se foram. De qualquer forma, para os que cercam o falecido, sempre é um balde de água fria na onipotência, a idéia de que as coisas acontecem para todos.
UNISINOS- Por que ainda é tão difícil falar sobre o fim da vida?
Mário Corso – Vocês são otimistas com o “ainda”, quer dizer que um dia vai ser mais fácil? Creio que quanto menos transcendência, mais difícil de falar. Se o que temos é essa vida, e vivemos para nossas pequenezas, como que iria ser fácil falar? Acho que falar com tranqüilidade é necessário ter uma vida mais ampla, com algumas realizações maiores do que o horizonte do consumismo que vivemos.
UNISINOS - O que a concepção da morte pelos jovens fala sobre a forma como eles vivem a vida na sociedade atual?
Mário Corso – Pessoalmente eu acho que é o contrário. Acho que é a vida que levamos que nos faz ter uma concepção da morte. A vida é uma experiência, e com ela podemos aprender, a morte é uma abstração que aos poucos tentamos circunscrever. Vivemos uma época diferente, a pós-modernidade, tal como a entendo, significa a queda das grandes referências (incluindo as religiões), dos grandes discursos dominantes, o que faz com que cada um de nós tenha que montar a sua síntese particular. Acho isso um desafio, é algo que dá uma liberdade, mas pede muito. Logo, não existe um grande sentido da vida a priori, e é relativo a esse sentido que uma vida vai ter valor, é sobre esse valor que uma morte terá sentido.
Exemplo prático: as estatísticas de suicídio nos mostram que elas são maiores onde o valor da vida é maior, afinal ali esse ato tem um grande sentido. Onde a vida humana não vale grande coisa, os índices são baixíssimos, afinal, lá esse ato não vai comover ninguém. Por isso é mais fácil um suicídio numa família pequena, ao estilo filho único, do que numa grande, onde há muitos irmãos.

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