O nascimento de uma nova neta faz com que Drauzio Varella ( Folha, 30 de janeiro) se debruce sobre o ser avô e, em consequência, sobre a maturidade.
Os netos surgem em nossas vidas quando estamos mais maduros, menos preocupados em nos afirmar, mais seletivos afetivamente, desinteressados de pessoas que não demonstram interesse em nós, libertos da ditadura que o sexo nos impõe desde a adolescência e cientes de que não dispomos mais de uma vida inteira para corrigir erros cometidos, ilusão causadora de tantos desencontros no passado.
Sabermos que não temos mais todo o tempo do mundo, segundo Varella, e eu concordo, faz com que nos concentremos no essencial procurando o máximo de felicidade num futuro imediato.
Algo, no entanto, que as pessoas confundem muito é serenidade e estagnação.
No jornal de domingo, li sobre uma senhora de 70 anos, com 20 netos e não lembro quantos bisnetos ( ela casou aos 16 anos), que entrou na faculdade.
Ela está serena, está em paz, não estagnada.
A paz não é resignação, não é baixar a cabeça e não é submissão, não é fazer o que os outros querem, não é abandonar sonhos, não é deixar morrer talentos.
A paz, na maioria das vezes, vem depois da luta e se alcança quando se consegue ser, cada vez mais, quem somos realmente.
Como dizia, em latim, aquela placa que existia sobre o portão do antigo quartel aqui de Porto Alegre e que o pessoal traduzia como civis passem pela bela – Si vis pacem, para bellum ( se queres a paz, prepara a guerra).
Assim, calor senegalesco, minha mãe definiria essa temperatura maluca dos últimos dias com sensação térmica de 43 graus.
São Borja, onde me criei, fronteira com Argentina, tem os verões muito, muito quentes. Esses "calores senegalescos" não são novidade para mim só que, agora, me habituei ao conforto da luz elétrica e do ar condicionado e, bem no fim, acho que sinto mais o calor.
Há 50 anos atrás, a única defesa que tínhamos, minhas primas e eu, contra o calor, era deitar no chão de tábuas da casa da estância cobertas, nós, não as tábuas ( aliás, elas também), de talco. Na verdade, não sei a razão do talco, tavez algo a ver com alguma propaganda da época ( sou do tempo do - ela é noiva, ela é linda, ela usa pond's, os mais velhos lembram disso? )
De qualquer maneira, acho que por pura sugestão a combinação de tábuas e talco nos refrescava até a hora do banho no arroio, aí sim, gelado, porque corria à sombra do mato.
Nessa tarde de calor senegalesco,enquanto a família toda reclama que o ar condicionado não está dando conta, lembro do frescor do talco e concluo que o mundo é, definitivamente, como tu o percebes ou, dito de outra forma, como tu o inventas.
Há livros aos quais retorno se estou triste, outros, se estou apaixonada, outros, ainda, se estou ansiosa.
Quando sinto que estou perdendo o sentido do fantástico, quando a realidade ameaça me transformar num ovo frito ( corriqueira e achatada), releio 100 Anos de Solidão de Gabriel Garcia Marquez.
Pois, estava voltando do Uruguai e a senhora sentada ao meu lado no avião, ao ver o livro que eu lia, me informou: 100 Anos de Solidão é meu livro de cabeceira.
Fiquei admirada, esse não é um livro fácil, a ação é espiralada, ligeira e contínua como água saindo pelo ralo, nele, o absurdo é constante e natural e todos os personagens importantes se chamam ou Aureliano José ou José Aureliano ( mas são chamados só de Aureliano, "para não complicar" ) e Arcadios. Lá pelas tantas, tu não sabes mais quem é avô e quem é bisneto.
Vendo a minha surpresa, do alto de seus 83 anos, ela explicou: É que eu tinha muito medo de morrer, e depois que li esse livro, perdi completamente o medo.
Fiquei com vergonha de perguntar porque o livro teve esse efeito, afinal, medo de morrer é uma coisa muito íntima, não dá para sair perguntando assim, mas, confesso, senti inveja do Gabriel G. Marquez. Quem dera alguém dissesse isso de um livro meu.
Um elogio desses é tão bom quanto receber o Nobel de literatural que, aliás, ele também recebeu.
Ontem, bem quando eu saía de casa, vinha passando a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes. Ao contrário de Porto Alegre, o número de fiéis aqui é muito pequeno. Apenas os barquinhos da escola de vela para crianças, um lanchão da marinha e duas ou três lanchas particulares.
Mesmo assim, parei para olhar.Sou fascinada por procissões.
Usando uniforme de gala e boina colorida, participei de várias, de Corpus Christi, com o as irmãs do Colégio Bom Conselho.
Lembro das casas da avenida Independência (naquele tempo eram casas ainda, não havia edifícios) as casas todas com as janelas abertas, engalanadas por colchas coloridas e almofadas para a passagem do cortejo.
De todas as procissões, uma, a primeira, foi especial.
Eu era muito pequena, devia ter uns seis ou sete anos, tinha ido passar alguns dias na casa da minha tia em Torres para tomar banho de mar e pegar iodo. Naquela época, se acreditava que os banhos de mar, por causa do iodo, eram imprescindíveis à saúde: quanto mais escura a água mais iodo ( bons e inocentes tempos).
Não lembro se era fevereiro ( procissão de Navegantes) ou Semana Santa.
Lembro que era de noite, estávamos minhas primas, eu, minha mãe e minhas duas tias.
De repente, em meio aos cânticos, uma correria, um princípio de pânico, a procissão se desfaz. Logo ficamos sabendo que um caminhão havia despencado de uma daquelas ruas íngremes perto da igreja velha de Torres e matado algumas pessoas que estavam na procissão, inclusive crianças.
Meu mundo infantil, regrado e protegido, onde bastava ser boa menina para estar a salvo, cuidada pelos anjinhos, terminou ali. Por mais que tentasse, não conseguia entender porque, se as pessoas estavam rezando, Deus não as havia protegido do caminhão.
Naquela noite em Torres, em meio a uma procissão abortada, continuei, apesar de tudo, acreditando em Deus, mas, ao mesmo tempo, aprendi que Ele não faz a menor questão de ser justo. A justiça é, bem no fim, uma invenção humana.
O cortejo castanho que a abraçava, Maria é paciente com esse povo, Há, em Maria, alguma coisa que perdoa
Maria passou hoje cedo à minha porta.
Ia num barco, descendo pelo rio,
envolta em dálias e medalhas,
levava silêncio, na boca pintada.
tinha um jeito de pecado brasileiro,
de riso aberto, bermuda e camiseta,
problemas comuns, cansaço e feriado.
não repara no suor, nas roupas gastas,
nem acha feio que lhes faltem dentes.
Conhece bem a angústia minuciosa.
um sofrimento maior, um não ter nada,
porque, a ela, muito cedo, foi tirado.
Aos poucos, os que não acharam o filme Amor sem escalas “tudo isso” vão aparecendo. A Martha Medeiros na Zero Hora de domingo, escreveu uma crônica muito boa – É impossível ser feliz sozinho? - dizendo que achou o filme bom, nada mais que isso e que, de tudo, o que mais gostou foi uma frase: Pense nos melhores momentos de sua vida, você estava sozinho ou acompanhado? Talvez porque eu tenha acabado de fazer um curso relâmpago sobre Platão,vou imitar Sócrates e perguntar a mim e a vocês o que é estar sozinho. Explico: Platão, através de Sócrates, adorava levar as pessoas à loucura fazendo uma pergunta atrás da outra. Se alguém dissesse, por exemplo – justiça – ele perguntava o que é justiça e ficava indagando e indagando, fazendo a pobre criatura dizer e se desdizer até a exaustão. Não é o meu caso, não sei levar as pessoas à loucura mas, de qualquer forma,pergunto: o que é estar sozinho. Para mim, não é o contrário de estar acompanhada, a solidão acompanhada é uma das piores. As pessoas podem viver na mesma casa, dormir na mesma cama e estarem absolutamente sós. O que estou falando vale para amor de mãe, de pai, de filho, filha, mas, para não complicar (minha filha diz que eu sou tão confusa que, se ela não estiver por perto para me traduzir, as pessoas não vão me entender) para não complicar, vou me ater ao amor de amantes, às relações amorosas, e vou pedir ajuda a uma música de Carlos Lyra e Vinícius – Minha namorada . Ao personagem do George Clooney, jamais falta uma namorada: com aquele charme todo, elas chovem sobre ele. Mas namorada não basta. Ter namorado também não é o oposto de estar sozinho. A música, como todos sabem, ( se não souberem, escutem)é dividida em duas partes. Na primeira é dito - se você quiser ser se minha namorada - e segue uma lista de coisas leves,boas e gostosas, que aconteceriam se ela quisesse ser a namorada. Mas é na segunda pergunta - mas se mais do que de minha namorada, você quer ser minha amada - que a coisa vai mais fundo, pega mais pesado. Só a amada divide caminhos, mesmo que sejam tristes, só a amada é estrela derradeira, amiga e companheira, só a amada é ninho, no silêncio de depois. Então, senhores, embora não sendo Sócrates, aplico o método dialético e chego a algumas conclusões: o oposto de estar sozinho não é estar acompanhado, namorado não é o mesmo que amado e last but not least, só não se está sozinho quando se está com a pessoa amada. Como consequência, no filme e na vida, a pergunta correta seria: Pense nos melhores momentos de sua vida, você estava sozinho ou com a pessoa amada ?
O Banquete é um dos diálogos de Platão, que, aliás, não tem nada de diálogo: para festejar a vitória de um deles num concurso de poemas, vários cidadãos atenienses se reunem num banquete e combinam que não irão beber demais e que, assim, sóbrios, ou quase sóbrios, irão louvar Eros, o amor.
Cada um dá, então, a sua visão do amor. Todos o definem como um deus.
Diferente de todos, Sócrates nega que Eros ( o amor) seja é um deus, ele é um demônio ( um dáimon) que serve de intermediário entre os homens e os deuses.
Sua origem seria a seguinte.
Os deuses festejavam o nascimento de Afrodite ( a deusa da beleza) num banquete.
Entre eles, estava Poros ou Recurso, um dos deuses mais belos e poderosos, filho de Prudência.
Na escadaria do palácio, mendigando migalhas, não convidada para a festa, estava Penia, a deusa da Pobreza, da Falta.
Embriagado, Recurso foi ao jardim do palácio “dar uma respirada” e adormece.
Penia, deita-se ao seu lado e o seduz.
Desse ato, nasce Eros, ou o Amor, filho do Recurso e da Falta que carrega consigo por todo vida as características antagônicas de seus pais - Recurso e Falta.
Essa seria a origem do amor, segundo Platão.
Como, os participantes do banquete não escondem e nem limitam nada, como falam abertamente do amor físico, louvando todas as suas formas, inclusive o amor homosexual e a pederastia ( que, não se assustem, não tinha naquela época a conotação negativa de hoje), O Banquete, durante a idade média torna-se um livro “perigoso”.
Sua versão original circulava, apenas de forma clandestina nos mosteiros, e, mais tarde, até 1960 ele integrava o índex , a lista de livros proibidos pela Igreja Católica.
Assim, é possível concluir, que para sobreviver à inquisição e chegar até nossa época, esse “romance” foi adulterado na idade média e, por isso, um dos conceitos modernos mais distanciado do seu sentido original, é o de amor platônico.
O amor platônico, ao contrário do que se pensa hoje, jamais negou o corpo.
O amor seria uma escada de sete degraus, dos quais o primeiro era o amor físico, a necessidade de se buscar a imortalidade pela procriação. O segundo, seria o amor não por uma pessoa mas pelas formas belas, o terceiro seria o amor pela beleza, independente da forma e assim por diante até alcançar o belo, o bom.
A diferença no entanto, entre o amor platônico de Platão e seu conceito moderno é que em Platão os degraus se somam, não se eliminam.
Do medo à inquisição e suas fogueiras veio essa adulteração do conceito platônico de que o amor prescinde do corpo.
Em Platão o amor inicia no corpo e, sem o descartar, sem o esquecer ou negar, o atravessa, em busca do belo.
Ontem fui assistir Avatar com tudo ( ou quase tudo) a que tinha direito: óculos, pipoca e água ( refrigerante, dizem, dá celulite ). Gostei muito. Tem alguma coisa de Espinoza, tudo compartilha uma natureza divina.
Os efeitos especiais, pelo menos na versão 3D, são ótimos: me senti falando ingles dentro de um quadro de Salvador Dali .
A maneira como o filme trata da preservação da natureza é absolutamente original, diria até disfarçada.
Não que disfarce a intenção de falar em ecologia, isso, não, o assunto fica bem claro desde o início.
Quando eu digo disfarçada penso nas artimanhas que as mães usam para que seus filhos comam legumes ou saladas: inventam formas, palhacinhos, oncinhas. No caso de Avatar o filme, lá pelas tantas, vira uma história de guerra. O pessoal engole a ecologia com muitas balas e bombas, sem sentir.
A jogada da conexão de cada habitante do planeta com a natureza ( bichos e plantas) ser visível é muito bem bolada. Todos usam os cabelos trançados e a ponta da trança se enrosca com a ponta de algo que os bichos e plantas têm, e por ali há uma conexão física, visível.
O mea culpa, a auto acusação, muito comum nos filmes americanos politicamente corretos, está presente não apenas quanto à destruição do nosso planeta mas também quanto ao terrorismo: vamos combater o terror com o terror o general diz lá pelas tantas. Se Bush não disse essa frase, devia ter dito porque foi o que sempre fez.
Gostei de Avatar, com correria, bala, bomba e tudo mais, é bem melhor que o tal do Amor sem escalas.
Nessa correria confusa em que vivemos, é bom ler algo escrito assim, com simplicidade.
Eu ganhei na mega sena
100 milhões não são nada diante do cafuné da pessoa amada.
Oi pai, tudo bem? Que valor tem uma ligação assim?
E o abraço fofo do neto, quanto isso vale?
Olha os matizes do céu que a natureza te entrega de graça. E a dança dos pássaros, a brisa da manhã, o perfume do jasmim, a sombra, o rio, a água fresca.
Ah, como é bom lavar a alma.
Boa sorte meu filho. Tanta gente daria tudo para ouvir isso de novo.
Está escutando o sabiá? Já caminhou de pés descalços na areia da praia?
Qual foi teu último banho de cachoeira? Lembra do cheiro de terra molhada?
A aquarela das flores, a sombra das árvores, o riacho trazendo a infância de volta, sem cobrar um centavo.
Um homem, uma mulher. Dois corpos nus fazendo amor. Nus, entendeu? Sem ouro, sem carro, sem palácio, sem nada.
Uma criança dormindo, um jovem cantando, um velho contando histórias.
Isso sim tem valor.
O por do sol, o nascer da lua, o telhado de estrelas cobrindo de graça nossos sonhos.
Amigos. Verdadeiros amigos, que grande prêmio!
Poder caminhar de mãos dadas, conversar, não dizer nada diante do mar.
Mergulhar, escalar a montanha, percorrer o infinito com o olhar.
Plantar, colher, saborear o tempero da vida.
Rir, dar gargalhadas. Que tesouro imenso guardado no peito.
Ter saudades. Isso também tem seu valor.
Um beijo, um afago, um encontro. Quem quer vender suas lembranças?
Ter idéias. Que prazer maior do que pensar? E não custa nada.
Ter saúde. Estar vivo. 100 milhões é um troco para quem pode sonhar.
Eu ganhei na mega sena quando me deram a vida de presente e o mundo inteiro pra brincar. Tudo bem, isso tudo e mais os 100 milhões?
É isso que queremos quando apostamos no que não temos e não damos valor para o que temos? É isso que tu queres?
Mas quem diz que aquele cafuné ainda vai ser por amor?
Sérgio Furtado
Um amigo me deu um livro de contos de Felisberto Hernandez ( 1902/1964) escritor uruguaio, pianista e compositor. O curioso é que, por muitos anos, Felisberto ganhou a vida acompanhando, ao piano, os filmes mudos. Eu o conhecia de nome. Colocado de través sobre as teclas, como trilhos sobre dormentes, havia um comprido lápis vermelho. Eu não o perdia de vista porque queria que me comprassem um igual. Quando Celina o tomava para anotar no livro de música, os números que correspondiam aos dedos, o lápis estava desejando que o deixassem escrever. Como Celina não o soltava, ele se movia ansioso entre os dedos que o sujeitavam, e com seu olho único e pontiagudo olhava indeciso e oscilante de um lado para outro. Quando o deixavam aproximar-se do papel, a ponta parecia um focinho que farejava algo, com instinto de lápis, desconhecido para nós, e inspecionava entre as patas das notas buscando um lugar onde morder.Por fim Celina o soltava e ele, com movimentos curtos, como os de um porquinho quando mama, se prendia vorazmente no branco do papel, ia deixando as pequenas pegadas firmes e acentuadas de seu curto casco negro e movia alegremente sua comprida cauda vermelha.
Não tenho aqui meus livros do Borges mas, se não me engano, ele fala muito em Hernandez.
Para os que nunca tinham ouvido falar ou, assim como eu, conheciam de diz que ( diz que é muito bom) eu informo: é muito bom, lembra Kafka, um Kafka mais delicado, lembra Cortazar, um Cortazar menos romântico.
De Um cavalo perdido, um conto sobre memória, que, começando na realidade do menino apaixonado pela professora de piano ( Celina) termina no adulto lembrando Celina e outras tantas mulheres que foram seduzidas pelo menino, que resistiu no adulto, menino que, por sua vez, seduz o adulto e suas lembranças...
É complicado de explicar, não de ler. Olha como ele fala de um simples lápis vermelho que ficava sobre o teclado e, com o qual, a professora fazia anotações nas partituras.
A tradução é minha, assim que... confiem desconfiando.

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