
Em entrevista para ZH, Bernardo Carvalho fala sobre seu novo romance, O Filho da Mãe

O cult/pop Nick Hornby fala de livros e leituras em coletânea de ensaios

A stripper que se tornou roteirista de cinema conta sua história em livro

O ator inglês David Suchet como Hercule Poirot em recentes adaptações de Agatha Christie
A colega Camila Saccomori, do blog Fora de Série, começou faz algum tempo e vem mantendo com admirável disciplina uma brincadeira divertida chamada O Brasil nas Séries. Ela sempre registra um print screen de alguma série que mencione nosso país nem que seja de passagem (muitas vezes em tal descompasso com a realidade que chega a ser cômico). Como eu não tenho a disciplina da Camila para inventar um troço desses e seguir adiante, não vou copiar a ideia para os livros porque não tenho como prometer seguir a periodicidade.
Mas me lembrei dessa boa ideia da Camila enquanto pousava aqui na minha mesa o livro Os Quatro Grandes (Tradução de Henrique Guerra. L&PM, 208 páginas, R$ 15), de Agatha Christie, mais uma aventura do excêntrico detetive belga Hercule Poirot que sai pela série que a L&PM está dedicando em sua coleção de Pockets para o trabalho da mais célebre autora de romances policiais de todos os tempos.
O livro, narrado em primeira pessoa pelo fiel amigo de Poirot, Hastings, começa com um encontro, ou melhor, desencontroentre os dois: Hastings está de volta à Inglaterra para rever Poirot depois de seis meses vivendo em uma fazenda no interior da Argentina. Só que Hastings chega no mesmo dia em que Poirot já está com passagem transtlântica comprada para... o Rio de Janeiro:
— Venha cá, vou contar como isso tudo aconteceu. Sabe quem é o homem mais rico do mundo? Mais rico até do que Rockefeller. Abe Ryland.
— Aquele norte-americano, rei do sabão?
— Exato. Uma das secretárias dele entrou em contato comigo. Tem uma coisa graúda, como se diz, uma fraude acontecendo relacionada a uma grande empresa no Rio. Ele queria que eu investigasse o assunto no local. Eu disse que não. Mandei dizer que, se os fatos fossem colocados à minha frente, eu daria minha opinião de especialista. Mas ele alegou ser incapaz de fazer isso. Eu só ficaria a par dos fatos ao chegar lá. Em situações normais, isso teria encerrado a questão. Querer impor condições para Hercule Poirot é impertinência pura. Mas a quantia ofertada era tão estupenda que pela primeira vez na minha vida balancei pelo vil metal. Era mais que uma bolada... uma fortuna!
Poirot, cujo medo de viajar de navio é célebre, preferindo os — para ele — bem mais civilizados trens, acaba desistindo da viagem depois que um sujeito que se comporta como louco invade seu apartamento. O homem só sabe balbuciar o endereço do próprio Poirot e repetir um texto que parece decorado falando dos misteriosos "quatro grandes" que dão nome ao livro — algo que ressoa investigações que Poirot já vinha fazendo. O homem também só consegue rabiscar desesperado o número "4". Deixando o homem aos cuidados da senhoria de Poirot, Hastings e Poirot pegam o trem até Southampton, onde Poirot deve embarcar no navio (tem uma música muito bonita do Pink Floyd chamada Southampton Dock, vocês manjam?). O trem nem bem parte da estação e Poirot conclui que a proposta para ir ao Rio só pode ser um despiste para tirá-lo do caminho. Ambos pulam do trem e voltam à casa de Poirot, apenas para encontrar o homem morto. Daí para diante, o detetive belga se envolve aos poucos em uma intriga internacional.

Ondjaki na Feira do Livro em Porto Alegre, em 2007. Foto: Daniel Marenco/ZH
Em frente à casa da AvóAgnette fazíamos desenhos no chão para depois fugirmos dos camiões de água que vinham ao fim da tarde para acalmar a poeira.
Era um largo grande, com uma bomba de gasolina no meio, que virava rotunda para camiões e carros darema a volta a fingir que a cidade era grande.
O camarada VendedorDeGasolina podia dormir muito durante o serviço porque a bomba nunca tinha gasolina. Só acordava com as falas do maluco EspumaDoMar:
— Essas estrelas que caem de repente têm nome: são estrelas calientes, e isto não é discurso de biamba, sei o que tou a falar com a minha boca de tantos dentes...
Do outro lado da bomba, estavam as gigantescas obras do Mausoléu, um lugar que ancavam a construir para guardar o corpo do camarada preseidente AgostinhoNetto, que andava estes anos todos bem embalsamado por uns soviéticos craques nessa arte de manter uma pessoa ainda com bom aspecto de se olhar.
Atrás das obras, do lado de lá do nosso largo, ali onde a poeira não conseguia nunca aterrar, ficava essa coisa que todos os dias me ensinava a cor azul: o mais grande, mais conhecido por oceano.
— Vocês falam estrelas cadentes, mas eu conheço os dicionários todos da língua angolana e da cubana. Estrelas calientes são fenómenos dos céus do universo escuro, a poeira cósmica e etcetera... Seus patetas que nunca andaram nas escolas universitárias!
Nós, as crianças, ríamos gargalhadas redondas que quase se viam desenhadas no ar. Ficávamos calados em espanto e magia a ouvir as frases do camarada maluco.
— Aprendam, meninos, há dois céus: o céu azul que pertence aos nossos olhos e ás asas dos aviões e dos passarinhos. E existe um céu negro que é tão grande como um deserto.
Quase não tínhamos medo do EspumaDoMar, nunca que tinha feito mal a ninguém só
— As estrelas calientes derreteram com os calores do sol e por isso caem em direção ao planeta mundo. Nuestro planeta es el unico que tiene agua para elas arrefecerem outra vez. São estrelas calientes, e um dia, depois de arrefecidas, juro, esas estrellas van a querer volver a casa...
Ele arrastava os panos e ia embora a rir um riso nervoso que também podia ser choro, cada vez mais rápido quase a correr, a levantar poeiras com os pés dele descalços, a ir sempre em frente como se fosse entrar no mar.
— Ainda vamos ver essas estrlas subirem, da terra para lá em cima, nos céus que dormem longe vestidos de brilhos brilhantes...
A prosa do angolano Ondjaki se faz na invenção da memória. Assim como em seus livros anteriores, Bom Dia Camaradas (leia mais aqui e aqui) e Os da Minha Rua, o novo romance do autor, AvóDezanove e o Segredo do Soviético (Companhia das Letras, 192 páginas, R$ 32), é a evocação pessoal de uma Luanda particular como um cruzamento entre mundos. O romance narra, pelo ponto de vista de uma criança (um tipo de narrador recorrente na escrita de Ondjaki) a vida na comunidade de Praia do Bispo, em Luanda, ou melhor, PraiaDoBispo no livro — marcando já na ortografia a diferença entre a Praia do Bispo "real" e a do romance.
O garoto mora com a avó, Agnette, também chamada de VóDezanove — numa referência ao fato de que a mulher precisou amputar um dos dedos do pé, ficando com 19 deles. Em uma Angola de governo socialista na qual os soviéticos são responsáveis por boa parte da infraestrutura no país ainda em guerra, as crianças brincam, afetadas pelas condições do país mas alheias às nuanças políticas: as ruas não têm calçamento, a eletricidade é racionada e logo começa a correr a notícia de que a vizinhança inteira será desapropriada para a construção de um mausoléu para abrigar o corpo do ex-presidente Agostinho Netto. Algo que as crianças tentam evitar com um plano improvável.
Luanda é a cidade por excelência da literatura de Angola, cenário de uma das obras fundamentais produzidas no país: os contos de Luuanda, de José Luandino Vieira, de 1963, que abordam a busca da identidade em um país colônial e as tensões que mais tarde explodiriam em guerra civil. Pertencente a uma geração posterior, sem a necessidade da militância política que pautou Luandino ou seu contemporâneo Pepetela, Ondjaki enxerga a miscelânea política e cultural da Luanda dos anos 1980 como um território ao mesmo tempo mágico e afetivo. Não mais as grandes contradições dos movimentos de independência do país, mas um retrato minimalista das vidas angolanas afetadas pela sua história.

Mia Couto em Parati. Foto de Bel Pedrosa
A guerra roubou-nos memórias e esperança. Mas, estranhamente, foi a guera que me ensinou a ler as palavras. Explico: as primeiras letras eu as decifrei nos rótulos que vinham colados nas caixas de material bélico. O quarto de Zacaria Kalash, nas traseiras do acampamento, era um verdadeiro paiol. O "Ministério da Guerra", como o pai lhe chamava. Quando chegámos a Jesusalém, já ali se guardavam armas e munições. Zacaria escolheu aquele compartimento para se instalar. Naquela mesma cubata, o militar me surpreendeu decifrando os rótulos dos contentores.
— Isso não se lê, miúdo — admoestou o ex-militar.
— Não se lê? Mas parecem letras.
— Parecem, mas não são. Isso é russo, e a língua russa nem os russos sabem ler...
Num gesto brusco, Zacaria rasgou os rótulos. Depois, entregou-me outros, que retirou de uma gaveta e que, segundo ele, eram a tradução que o Ministério da Defesa fizeram dos originais em russo.
— Você lê apenas estes papéis que são em puro português.
— Me ensine a ler, Zaca.
— Se quiser aprender, aprenda sozinho.
Aprender sozinho? Impossível. Mais impossível, porém, seria esperar que Zacaria me ensinasse fosse o que fosse. Ele sabia das ordens de meu pai. Em Jesusalém não entrava livro, nem caderno, nem nada que fosse parente da escrita.
— Pois eu o ensino a ler.
Foi o que, mais tarde, disse Ntunzi. Recusei. Era demasiado arriscado. O meu irmão já me estreara a ver, no rio, o outro lado do mundo. Não podia imaginar como reagiria o velho Silvestre caso soubesse das transgressões do seu primogênito.
— Eu o ensino a ler — repetiu ostensivamente.
E foi assim que começaram as primeiras lições. Uns aprendem por cartilhas em salas de aula. Eu me iniciei soletrando letras de guerra. A minha primeira escola era um paiol. As aulas ocorriam na penumbra do armazém, nos longos períodos em que Zacaria estava ausente, aos tiros pelo mato.
Em um lugar esquecido pelo tempo, cinco homens, pai, dois filhos, tio e um empregado, vivem em uma solidão bíblica, supostos últimos sobreviventes de um mundo que acabou. Um isolamento que será quebrado por uma perturbadora figura de mulher, Eva às avessas, que trará o mundo de volta ao autoritário paraíso da imobilidade. Esse é, em poucas linhas, o mote do novo romance de Mia Couto, Antes de Nascer o Mundo (Companhia das Letras, 280 páginas, R$ 42). Um resumo que, como costuma acontecer sempre, não dá conta da riqueza temática e de linguagem do premiado autor moçambicano, apontado com um dos expoentes da prosa em português produzida na África.
Expressão das contradições de um continente que busca conciliar sinais esparsos da modernidade ocidental com suas tradições ancestrais, a obra de Mia Couto é feita de convergências. Seus livros casam fragmentos da literatura de gênero com o imaginário mágico do continente expresso em situações inusitadas e metáforas poéticas como em "A felina ainda deu uns passos bêbados, como se a morte fosse uma tontura que dá no próprio chão".
Em um acampamento militar abandonado, em um ermo a que chamam de Jesusalém — a Jerusalém "onde Jesus haveria de se descrucificar" —, o menino Mwanito vive na companhia do pai, Silvestre, do rebelde irmão Ntunzi, que sonha em fugir do lugar, e do ex-militar Zacaria Kalash, que guiou o grupo até seu refúgio desolado, uma fuga decidida pelo pai autoritário, que foge da vida urbana e da saudade que sente da mulher, Dordalma, morta no parto. De tempos em tempos, os quatro recebem a visita do misterioso Tio Aproximado, que mora em uma cabana na "lonjura de horas e feras". Uma pretensa vida em harmonia prestes a ser esfacelada pela aparição da portuguesa Marta, que perturba o lugar com a memória de um mundo exterior.
Assim como já fizera com o policial em A Varanda do Frangipani e com o relato histórico em O Outro Pé da Sereia, Mia Couto subverte à sua maneira o relato pós-apocalíptico também para pensar as feridas de um Moçambique cindido por anos de guerra civil.
Um dos mais aclamados autores de Língua Portuguesa atualmente, o romancista António Lobo Antunes, convidado desta edição da FLIP, é um problema. Mais de um, na verdade. Em um meio em que tapinhas nas costas e sorrisos cínicos são de rigueur, ele é um boquirroto incansável em empilhar juízos demolidores sobre seus pares escritores, vivos ou mortos — sim, esse é outro problema, Lobo Antunes não respeita o "de mortuis nil nisi bonum".
Tem mais. Quando um autor resolve queimar seus confrades publicamente, muitos aventam tratar-se de alguém motivado pelo ressentimento ou pela inveja de não ter sua própria obra tão reconhecida quanto a daqueles de quem fala mal. Também não é o caso aqui. Lobo Antunes, crítico virulento da obra do único português laureado com o Nobel, José Saramago, é ele próprio reconhecido como um titã literário do mesmo nível de Saramago - ou até melhor, para os que embarcam na torcida organizada do autor. O fato é que seu temperamento provocador não é cortina de fumaça para esconder uma literatura medíocre, pelo contrário, é parte do comprometimento artístico que o autor leva às últimas consequências em seus livros, com resultados sublimes.
Logo, Lobo Antunes é um problema também para quem tem a mania ou o gosto pela classificação. Como categorizar sua obra e sua persona, ambas tão únicas no cenário artístico contemporâneo? Um problema classificatório que o próprio autor
se dá por satisfeito em provocar - Lobo Antunes já disse em mais de uma entrevista que um artista e um intelectual exercem papéis diferentes, e raros são os que combinam as duas coisas. Ele, assumidamente, diz que não é um desses, que é apenas artista, e por isso não lhe cabe definir ou explicar sua obra, apenas escrevê-la – o que ele faz com paixão e desespero, como se pode ver no video abaixo, gravado pela editora portuguesa do autor, a Dom Quixote, para marcar o lançamento lá na terrinha do romance mais recente dele: Arquipélago da Insónia (ainda sem edição no Brasil). Lobo Antunes fala bem pouco do livro, mas fala muito — e bem — sobre sua visão da literatura como missão, o ambicioso projeto de escrever livros que contenham a vida em seu interior, sobre como mesmo os melhores romances são "grandes livros doentes" e sobre como cada vez é mais difícil escrever. Cliquem abaixo e aproveitem, porque vale a pena.
Antunes tem uma dúzia de livros já lançados aqui no Brasil. Há edições antigas ainda encontráveis, embora dispersas por mais de uma editora ou selo: alguns mais antigos, como Exortação aos crocodilos, Fado alexandrino e O Esplendor de Portugal pela Rocco e os mais recentes, como Boa Tarde às coisas aqui em baixo pela Objetiva. A mesma Objetiva, por meio de seu selo Alfaguara, está reeditando a obra integral do autor aqui no Brasil. Já saíram pela coleção de Lobo Antunes pela Alfaguara Os cús-de-Judas, Conhecimento do inferno, Memória de elefante, Eu Hei-de Amar Uma Pedra, Ontem não te vi em Babilónia e uma nova edição de Boa tarde às coisas aqui embaixo. Os lançamentos mais recentes são a reedição de Explicação dos pássaros e a publicação por aqui do até pouco tempo inédito no Brasil O Meu nome é legião.
O caderno de Cultura deste sábado avança, com uma reportagem feita a quatro orelhas e quatro mãos por mim e pela colega Patrícia Rocha, mais um pouco na polêmica das leituras nas escolas, na esteira de mais um barulho, desta vez no Rio Grande do Sul. Neste blog mesmo já havíamos tratado o assunto aqui neste post. Um dos ganchos para o retorno ao tema é que Um Contrato com Deus, de Will Eisner, foi alvo de uma recomendação negativa da Secretaria Estadual de Educação porque mostra, entre outras coisas, relações adúlteras, cenas de sexo, abuso infantil, violência contra a mulher, pedofilia.
Parte do nosso trabalho não entrou na edição final do texto no jornal, mas foi, adianto para todos vocês, um dos momentos mais divertidos de toda a resportagem: eu e Patrícia ficamos pensando que, se temas como adultério, violência, sexo promíscuo e até mesmo incesto ou termos de cunho erótico ou que poderiam ser considerados de baixo calão definissem, a priori, que um livro não poderia ter lugar nas estantes das bibliotecas escolares, muitos dos clássicos da literatura brasileira e estrangeira seriam vetados a colegiais. E aí, elaboramos uma listinha muito breve (que não completamos nem aumentamos porque soubemos de antemão que não seria usado). Mas partilho com vocês nossas impressões, meus bravos leitores do Mundo Livro:
* Clássicos de Eça de Queirós, como O Primo Basílio e Os Maias, por exemplo, reuniriam pelo menos: incesto, adultério, lesbianismo e descrições de momentos de intimidade sexual. Claro, com a linguagem elevada própria de Eça.
* Praticamente toda a obra de Jorge Amado derraparia no tema — e na linguagem. Inclusive um dos mais recomendados em escolas, Capitães de Areia.
* Aquele que é considerado o maior escritor brasileiro, Machado de Assis, também poderia ser alvo de desaprovação. Brás Cubas tem um caso relação com sua antiga paixão de juventude, Virgínia.
* O livro que serve de mote para ensinar o naturalismo, O Cortiço, de Aluísio Azevedo, é um retrato cru de pobreza, promiscuidade, corrupção, com direito a adultério, estupro e lesbianismo.
* As peças de William Shakespeare, principalmente as trágicas, são ricas em cenas de assasinatos. Da mesma forma, as tragédias gregas, que incluem incesto, mortes violentas e infanticídio.
E vocês? Lembram de mais algum exemplo?
O nome do livro é Pornografia (Tradução de Tomasz Barcinski. Companhia das Letras, 210 páginas, R$ 42). No transcorrer do livro, jamais a pornografia é nominada.
Não precisa. A força da narrativa de Witold Gombrowicz (na foto, em 1965), sempre ondulando entre o sexo presumido e a morte consumada, está no que deixa de ser dito. É o relato de um homem que viveu a distância o pesadelo do país onde nasceu e onde a mais sangrenta de todas as guerras principiou, com todas as suas consequências.
O ano é 1943. A Polônia de Gombrowicz está, desde 1939, invadida, violentada pela Alemanha nazista. Milhões de mortes, famílias são destroçadas e expelidas por uma cultura europeia intolerante cultivada durante séculos. O autor fizera, naquele final trágico da década de 30, um despretensioso cruzeiro pela Argentina. Um turismo que acabou durando mais de 20 anos, que o tornou argentino de adoção. Bem longe, a Polônia era submetida à brutalidade da Alemanha de Hitler, que instalou por lá a mais letal fábrica de matar, a de Auschwitz. Pornografia pura. Real e sem rodeios. Basta pelas descrições sutis. Os confrontos da guerra e o sexo passam à margem.
O texto, descritivo, tendo o autor como narrador e um dos protagonistas, é permeado pela contraposição entre um rosto vincado que a guerra enrugou e a pele macia, fresca, da juventude. Gombrowicz não fala, mas deixa claro: seus personagens são o homem de Rousseau, que nasce bom para ser corrompido por uma realidade que a crise e a guerra desnudam. A vida enlouquece. Pornografia, mas nada a ver com a pureza da sensualidade, isenta de promiscuidade. É morte x desejo.
Uma frase: "Depois dos 30 anos, o ser humano penetra na monstruosidade. A beleza esteve naquele outro lado - o jovem."
Outra frase: "A violência! A violência! Não era essa a qualidade primordial de um homem? O homem é aquele que violenta (...)".
O desabafo de um personagem ao ser privado da oportunidade de matar:
"— Estou nu! Como me sinto nu!Meu Deus! Como fui despido! Eu, na minha idade, não deveria andar nu! A nudez é coisa para os jovens!"
Henia, a menina, e Karol, o menino, adolescentes, bonitos, sensuais, não se permitem dar vazão ao desejo compartilhado, submetido pelo peso dos dogmas, sejam eles religiosos ou pagãos. É o mundo viciado em fuligem, que não permite o protagonismo da vida. Não por acaso, Henia e Karol são coadjuvantes. Ela está prometida a um advogado autointitulado garantidor da moral, com sua calvície incipiente e um bigode que lhe confere sisudez. A negação da libido é a própria pornografia, a cada parágrafo.
De grande profundidade psicológica, o texto flui, e seu conteúdo não perde força, seis décadas depois do ano em que a Polônia foi violentada por Hitler e a guerra alcançou o mundo. Tal promiscuidade se vê em cada canto do planeta. Como nos anos 30 e 40, de genocídio nazista sustentado pela quebra de 1929, as atuais incertezas pós-crise global explicitam hoje toda sua pornografia: xenofobias, certa esquerda amnésica que se diz o arauto de um socialismo do futuro mancomunada com a extrema direita das teocracias e ditaduras obscurantistas, o capital sem limites e sem regulação social, o preconceito, a intolerância, a violência. A perda do rumo natural, da sensualidade humana seminal. Tudo como no pesado universo de Gombrowicz.
A pornografia é explícita por definição. Não precisa ser nomeada. Nesta resenha, só os jovens coadjuvantes Henia e Karol tiveram seus nomes revelados, além, é claro, do próprio autor-personagem. A promiscuidade está à vista. É só olhar em volta.
* Publicada originalmente no Caderno Cultura de 21 de março deste ano.

Michael Jackson é o primeiro transracial da história. É claro que houve, antes dele, negros modificando a aparência a fim de tornaram-se brancos. Houve, há e haverá, enquanto existir um sistema cultural que acredite em raças e postule a superioridade de uma em relação às outras. Antes do avanço das técnicas cirúrgicas e cosméticas, as modificações eram contudo menos drásticas, pelo menos do ponto de vista dos resultados: passava-se a ferro o cabelo, para alisá-lo, cobria-se o rosto de pó-de-arroz, clareavam-se os pêlos. Para ficarmos no mundo do showbiz norte-americano, Little Richard, na década de 1950, passava pó-de-arroz, desenhava as sobrancelhas e usava batom. Pouco antes de Michael, sua madrinha de carreira artística — e depois desafeto —, Diana Ross, valendo-se já dos avanços na medicina estética, fez plástica para afinar o nariz. Hoje assistimos, sem qualquer assombro, negras louras como Mariah Carey e Beyoncé Knowles: louras de cabelo liso e traços finos.
Mas o sentido, e, consequentemente, o resultado dessas transformações é uma espécie de beleza negra com traços brancos, o que significa dizer: uma negritude atenuada. Aqui se revela uma hipocrisia gritante do multiculturalismo contemporâneo: dos desenhos animados japoneses, em que os heróis são orientais de olhos enormes, passando pela Miss Universo 2006, a porto-riquenha Zuleyka Rivera, até a estrela chinesa Zhang Zhyi (de O tigre e o dragão e O clã das adagas voadoras) o que se nota é que a beleza de todas as "raças" é admitida desde que seja mediada por traços ocidentais. Em outras palavras, isso quer dizer que o japonês será tanto mais bonito quanto mais ocidental e menos japonês ele for, o negro, idem, o chinês, também etc. Em suma, o multiculturalismo estético é, em sentido profundo, a negação da diversidade das culturas. Michael Jackson, entretanto, não é um negro que quis dar-se traços brancos, a fim de chegar a uma economia ideal da beleza negra suavizada. Suas intervenções, cirúrgicas e cosmetológicas, se tornaram peculiares por seu caráter infinito, processo que o conduziu para além da normatividade estética. Michael não quer se adequar a uma padrão. Ele não é, segundo o modelo da cultura norte-americana, bonito.
Seu corpo rumou para além de qualquer "raça" (ele já não é negro, nem branco, nem mulato), para além do sexo, da idade, etc. O transracialismo de Michael Jackson é singular. Nele, o prefiso "trans" não se dirige a uma forma reconhecível, ideologicamente adequada, mas a um work in progress em que, no limite, é a própria categoria de humano que está em jogo.
Por sua própria estranheza, é esperado que um transracialismo provoque incômodo. Mas a reação a ele por parte de muitos norte-americanos mais se assemelha a um massacre. É chamado, agressivamente, de Wacko Jacko (algo como "esquisitão", "bizarro"), há inúmeros sites na internet ridicularizando suas metamorfoses e seu comportamento idiossincrático, foi acusado pela primeira vez, em 1993, de pedofilia, e foi novamente acusado, em 2003, por diversos crimes, todos envolvendo abuso sexual de crianças. Em 1993, houve um acordo extra-judicial com a família do acusador - os valores nunca foram revelados - que livrou o cantor de um processo. Em 2003, como costuma ocorre na cultura norte-americana, que dramatiza suas questões fundamentais judicialmente (Margo Jefferson, do The New York Times, observa com perspicácia que o advogado de defesa, famoso e dispendioso, é tão típico da mitologia norte-americana quanto o caubói), Michael se viu envolvido numa teia de dez acusações e um promotor apelidado de "cachorro louco", tendo sua vida privada transformada em um espetáculo público comparável a uma malhação do judas em escala mundial. Ao fim do processo, em 2005, foi inocentado de todas as acusações.
Tenha sido feita ou não Justiça, importa notar que não há dúvidas quanto ao fato de que Michael Jackson foi julgado, não apenas pelos supostos crimes de pedofilia, mas por seu comportamento como um todo. Por seu gênero indefinido, nem homem nem mulher, por sua sexualidade incompreensível (não se sabe por que meios ele teve seus filhos, nem mesmo se são de fato seus, já que são todos brancos: e, quando perguntado, na famosa entrevista entrevista de 1993 a Oprah Winfrey, se era virgem, recusou-se a responder, preferindo declarar, de modo elusivo, que é um "cavalheiro"), por sua reclusão radical, por seus complexos infantis, por morar num parque de diversões etc. etc. Assim, a suposta pedofilia foi ao mesmo tempo uma acusação e um pretexto, um processo e uma sentença, uma vingança e uma catarse coletiva. Mas por que tamanho ódio a Michael Jackson? Afinal, trata-se de um gênio indisputável. Ele fundiu a disco music com o soul e o rock; inventou uma assinatura corporal e criou o Moonwalk, um dos passos mais célebres, senão o mais célebre, do mundo; revolucionou a linguagem do videoclipe; detém vários recordes, entre eles o de disco mais vendido da história (Thriller, 50 milhões de cópias, aproximadamente).
O trecho acima é de um ensaio chamado O Comedor de Criancinhas, incluído na coletânea Banalogias (Editora Objetiva). O livro reúne 26 artigos escritos pelo filósofo e colunista de imprensa Francisco Bosco, tendo como modelo assumido as Mitologias de Roland Barthes, nas quais o francês iluminava aspectos do cotidiano buscando as novas mitologias cotidianas. Os textos dissertam sobre prostituição, sobre a ontologia do "golaço", a magreza como signo no rock'n'roll, a tatuagem como uma segunda nudez sobre a pele e a transformação gradativa de Michael Jackson em um ser além do humano — algo que Bosco pensa como uma resposta ainda que inconsciente ao racismo intrínseco da sociedade americana, o que lhe valeu o ódio dessa mesma sociedade cuja cultura Michael elevou
Para quem quiser também se aprofundar na literatura disponível sobre o fenômeno cultural Michael Jackson, há um livro lançado em tradução em 2006, escrito pela jornalista e crítica de teatro do The New York Times Margo Jefferson.(o estudo citado por Bosco no texto aí de cima. Em Para entender Michael Jackson: ideias contemporâneas (Rocco, 124 páginas), ela discute a atração da multidão pelo exótico, por meio da análise da trajetória de ascensão e decadência de Jackson como fenômeno pop. Escorada em pesquisas e trabalho re reportagem, ela ainda debate a necessidade que o público americano tem de transformar um artista em assunto mais pelas excentricidades de seu comportamento do que por sua obra.
Essa é para o povo oficineiro de Porto Alegre. Neste sábado, dia 27, estará em Porto Alegre, para ministrar uma oficina literária no centro médico Clínica Verri (Rua Tobias da Silva, 267/506, bairro Moinhos de Vento, telefone (51) 3022.4444) o escritor, crítico e editor Luiz Ruffato, nome de ponta da literatura contemporânea nacional. De acordo com o material que me mandaram a oficina alterna exercícios e discussões práticas com teoria literária e reflexões a respeito do processo de criação.
As aulas serão realizadas das 9h às 12h e das 14h às 17h, e o preço da inscrição é R$ 150. Cada um dos participantes deve levar no dia da aula um conto de no máximo 6 mil caracteres para ser discutido na oficina.
Ruffato, para quem não sabe, é o autor de Eles eram muitos cavalos, romance cujo título que chegou a ser merecidamente lembrado na nossa enquete aí debaixo de títulos mais bacanas para obras de ficção. É um panorama multifacetado, formado de colagens de episódios e vozes que formam um mosaico da São Paulo urbana, caótica e desumana dos dias de hoje.
Desde 2005, Ruffato vem se dedicando à publicação da série Inferno Provisório - uma obra pretensiosa, no bom sentido. Em uma literatura nacional por demais centrada na subjetividade, Ruffato decidiu mesclar esse mergulho na consciência de seus personagens com uma história ficcional que abarcasse o desenvolvimento da classe proletária no Brasil do último meio século por meio da história de uma série de personagens que se interligam de história para história e até de livro para livro.
Até agora, já ganharam corpo nessa vertiginosa viagem literária quatro capítulos anteriores da série, Mamma son tanto Felice, O Mundo Inimigo, Vista Parcial da Noite e o mais recente, lançado no ano passado, O Livro das Impossibilidades. A narrativa espalhada por eles é tão fragmentária que a leitura pode começar por qualquer ponto, não obrigatoriamente pelo primeiro volume.
É uma saga de difícil classificação. Em uma ampla narrativa passada em um microcosmo que vai de Cataguases e São Paulo, Ruffato conta também a história do proletariado industrial no Brasil do século 20. Essa descrição não dá conta do projeto, claro. E o termo "romance" também não. Nem "conto". Trata-se de um emaranhado de histórias de vidas perdidas que se cruzam primeiro na cidade pequena, depois na metrópole.
O Livro das Impossibilidades situa-se, prioritariamente, nos anos 70, mas a narrativa avança até os 80 e recua até os 60. A tal ambiciosa reconstrução do capitalismo é um pano de fundo que não negligencia a construção de ricos personagens, cujas vidas refletem as duras transformações produzidas pelo progresso. Depois da descrição das pequenas cidades frutos da industrialização, nos primeiros livros, este último centra o foco no sonho de "vencer" na cidade grande, numa época em que o otimismo industrialista convive com o endurecimento do regime militar.
Para dar conta desse panorama, Ruffato urde três histórias, Era uma Vez, Carta a uma Jovem Senhora e Zezé & Dinim. Mostrando por que é um dos mais inventivos autores brasileiros da atualidade, ele não se restringe a uma narrativa tradicional, procura caminhos experimentais — Zezé e Dinim, por exemplo, têm suas histórias narradas em colunas lado a lado.
Numa entrevista lá em 2005, Ruffato me comentou que planejava incorporar mais adiante no ciclo Inferno Provisório o próprio romance Eles Eram Muitos Cavalos, como o quinto episódio da série, dedicada à época atual. Mas como o livro foi recentemente reeditado, provavelmente a intenção não está mais valendo. O próximo lançamento do escritor, em setembro, é o romance que escreveu como parte do projeto Amores Expressos — aquele no qual autores eram enviados para passar um mês em um determinado país, pesquisando elementos para um romance a ser publicado na volta. Já saíram Cordilheira, fruto da viagem de Daniel Galera a Buenos Aires, e O Filho da Mãe, escrito por Bernardo Carvalho depois de uma estada em São Petesburgo.
O de Ruffato se passará em Lisboa.
Qual o avesso do Mito? Para a escritora canadense Margaret Atwood, não é a realidade, como se poderia pensar, mas a farsa.
Atwood é a autora de A odisseia de Penélope (Tradução de Celso Nogueira. Companhia das Letras, 160 páginas, R$ 32), livro no qual reconta a história do guerreiro Ulisses pelo ponto de vista da sua mulher, Penélope, a esposa que esperou 20 anos pelo retorno do marido da Guerra de Troia. O livro é parte de uma coleção em que escritores contemporâneos do mundo todo são chamados a recontar mitos clássicos da literatura. A série já rendeu também uma releitura do mito de Sansão em Mel de Leão, de David Grossman, israelense autor de Alguém para Correr Comigo; uma fantástica recriação do mito de Teseu e o Minotauro no romance O Elmo do Horror, do russo Victor Pelevin (sobre o qual já escrevemos aqui mesmo no blog), e até a narrativa longa mais recente do brasileiro Milton Hatoum, Órfãos do Eldorado (o autor fala mais do romance neste post do próprio blog e nós resenhamos neste outro).
Margaret Atwood é, atualmente, uma das grandes autoras de língua inglesa, e seu nome volta e meia aparece nas bolsas de apostas como cotada para o Nobel de literatura deste ano. A história da qual ela se vale em sua recriação mítica é a do rei de Ítaca, Ulisses (em grego, Odisseu), e sua longa volta para casa após os 10 anos da guerra de Tróia. O guerreiro, descrito nos poemas de Homero (Ilíada e Odisseia) como um homem ardiloso e cheio de astúcia, leva outra década para regressar a sua ilha rochosa. No poema de Homero, Penélope, sem o marido, revela-se tão astuciosa quanto ele para se livrar de uma centena de nobres pretendentes que acampam na casa do rei ausente e exigem dela a escolha de um novo marido que assim assumiria o trono da ilha e a cama da rainha.
Graças a Homero, Penélope passa à história como modelo de virtude conjugal, até que Odisseu finalmente retorna, mata todos os pretendentes, enforca 12 escravas que eram amantes dos homens e reassume seu trono e seu casamento.
Em A odisseia de Penélope (versão do título que nivela por baixo o original The Penelopiad, melhor traduzido como A Penelopíada, mas provavelmente incompreensível para a maioria dos leitores), Atwood contesta com humor sarcástico não apenas a predominância de Odisseu como centro da lenda, mas a propalada virtude de Penélope.
A história é contada nos dias de hoje pelo espírito de Penélope diretamente do Hades, o reino grego dos mortos, onde a rainha passou os últimos três mil anos. De lá, ela reafirma sua postura de rainha benevolente. É em suas palavras também que se percebe o rancor contra a prima Helena, mulher de Menelau e a mulher que, com a fuga com Páris para Troia, desencadeia toda a guerra.
As palavras de Penélope, entretanto, não são a fonte única. Margaret elege, de modo farsesco, os espíritos das 12 escravas enforcadas como um coro grego,
aos moldes das tragédias clássicas, comentando a história de Penélope e oferecendo uma versão menos casta da espera da rainha. A rainha teria sim cedido a alguns dos pretendentes durante os anos em que esperou Odisseu. E, para defender sua virtude, teria insuflado o marido a executar as escravas que poderiam trair seu segredo.
E por falar em Atwood, um lançamento batuta e mais recente da canadense é Buscas Curiosas, coletânea de ensaios, prefácios e resenhas (Tradução de Ana Deiró. Rocco, 432 páginas, R$ 52), que comecei a ler esta manhã e pela qual estou avançando com grande satisfação (apesar de a tradução verter para "novela" indiscriminadamente qualquer narrativa longa — "novel" em inglês —, como os alentados As bruxas de Eastwick, de Updike, e Neve, de Orhan Pamuk. Mas, entre outras coisas, meu prazer dessa leitura em particular advém de passagens como a que segue:
Sempre que me pedem para falar sobre o que constitui uma boa história, ou o que faz uma história bem escrita ser "melhor" do que outra, começo a me sentir muito desconfortável. Depois que você passa a fazer listas ou a criar regras para classificar histórias ou qualquer outro tipo de obra escrita, algum escritor com toda certeza aparecerá e, sem a menor cerimônia, quebrará todas as regras abstratas que você ou quaisquer outras pessoas algum dia conceberam, e ao fazer isso impressionará a ponto de lhe tirar o fôlego. O uso da palavra deveria é perigoso quando se fala de obra escrita. É uma espécie de desafio aos desvios, à engenhosidade e à inventividade, audácia e perversidade do espírito criativo. Cedo ou tarde, qualquer pessoa que a tenha usado com demasiada liberdade estará sujeita a acabar usando também orelhas de burro. Não julgamos boas histórias pela aplicação a elas de algum conjunto de medidas externas, como julgamos abóboras gigantes na Grande Feira de Outono; nós as julgamos de acordo com a maneira como nos tocam, com a impressão que criam em nós. E isso dependerá de grandes imponderáveis subjetividades, que englobamos num conjunto com o título geral de gosto.
No Segundo Caderno desta quarta-feira,, temos uma entrevista bem bacana que o editor Ticiano Osório fez com o escritor Amilcar Bettega sobre a tradução feita por este último para 125 contos do autor francês Guy de Maupassant (1860 — 1893), que saiu faz pouco pela companhia com o título simples e autoexplicativo de 125 Contos de Guy de Maupassant, naquela coleção muito bacana de volumões trazendo compilações extensas de contos por autor (Truman Capote, Scott Fitzgerald, Rubem Fonseca, entre outros) ou tema (Contos de Horror do Século XIX, Contos de Fadas, Contos de Amor do século XIX, por exemplo).
O autor da vez é o típico caso do escritor que parece menor em comparação com seus contemporâneos. Maupassant (na foto) é um representante algo enviesado do realismo literário francês que gerou, entre outros, Balzac, Flaubert e Zola, nomes que já vinham depois do gigante romântico Victor Hugo. Em comparação com um time desses, Maupassant é colocado quase sempre em segundo plano (já era naquela época, os Goncourt, por exemplo, o consideravam um escritor bom mas não um grande escritor). De fato, perto da precisão iluminada de Flaubert, seu mestre literário, Maupassant parece até tímido, mas não se pode afastá-lo do cenário nem negar a ele a posição de um dos nomes centrais para estabelecer as bases do conto como gênero da forma como é praticado ainda hoje.
No ensaio Maupassant and the American Short Story, o crítico americano Richard Fusco aponta como admiradores de primeira hora do autor francês (cuja primeira tradução em inglês, diz Fusco, saiu ainda em 1890) escritores basilares para a "short story" que ainda hoje se pratica nos Estados Unidos, como Henry James, Stephen Crane e Ambrose Bierce. Maupassant foi um dos primeiros a perceber que os melhores contos eram os mais concisos, e que nem sempre um enredo linear é o mais eficiente em termos de impacto no leitor, às vezes uma estrutura narrativa um pouco mais elaborada, como em espiral, ou com uma surpresa que reverte a narrativa no final eram ainda mais eficientes e deixavam uma memória mais vívida no leitor.
Outro ponto a ser ressaltado é o quanto Maupassant foi prolífico. Morreu demente aos 43 anos, destruído pela sífilis. A maior parte da vida antes dos 30 anos foi vivida como seminarista, militar ou burocrata, ele passou a se considerar de fato um escritor por profissão depois da publicação do primeiro livro, em 1880. E morreu em 1893 — sendo que praticamente já não escrevia mais desde 1891, quando, afetado demais pela loucura, tinha crises freqeuentes que o impossibilitavam de trabalhar. Ou seja: em um período de pouco mais de uma década, mesmo revisando seus escritos cuidadosamente, como havia aprendido com seu mestre Flaubert, Maupassant produziu seis romances, três centenas de contos e um número quase igual de crônicas na imprensa.
Pois vamos aproveitar a oportunidade para ressuscitar nossa já meio esquecida brincadeira literária de comparar versões diferentes de textos de um mesmo autor. Maupassant é um dos escritores com grande número de traduções no Brasil (escrevia em francês, língua que nunca teve problema de formar tradutores por aqui), e, portanto, vamos comparar três delas, em vez das habituais duas. Todas do primeiro parágrafo do conto Bola de Sebo, uma de suas primeiras obras e considerada uma de suas obras-primas
Primeiro vejamos a tradução de Mario Quintana para a Editora Globo, saída do volume Bola de Sebo e Outros Contos, reunião de 14 histórias em uma edição barata em papel-jornal publicada na coleção Clássicos Globo, de 1987 (quando a Globo já não era mais a Editora Livraria do Globo, de Porto Alegre, e seu catálogo havia sido adquirido pela empresa jornalística Globo do Rio). Por isso, essa tradução deve ser ainda mais antiga, da época em que a Globo ainda era a "Globo da Rua da Praia" e Quintana era colega de Erico Verissimo no departamento editorial da mesma. Não consegui averiguar, contudo:
Durante dias e dias, haviam atravessado a cidade os destroços do exército batido. Não eram tropas, mas hordas em debandada. Os homens tinham a barba longa e suja, os uniformes em farrapos, e avançavam cansadamente, sem bandeira, sem ordem. Pareciam todos acabrunhados, curvados, incapazes de um pensamento ou de uma resolução, a marchar unicamente por hábito e a tombar de fadiga logo que paravam. Viam-se principalmente os mobilizados, gente pacífica, rendeiros tranqüilos, curvados sob o peso do fuzil; rapazolas espertos, fáceis de assustar e de entusiasmar, tão prontos para o ataque como para a fuga; depois, no meio deles, alguns culotes vermelhos, sobreviventes de uma divisão esfacelada numa grande batalha; artilheiros sombrios a ombrear com aquela milícia colorida; e, por vezes, o brilhante capacete de um dragão de passo arrastado que seguia penosamente a marcha mais rápida dos soldados de infantaria.
Agora, vamos dar uma olhada na tradução de Léo Schlafman para a coletânea As Grandes Paixões: contos de Guy de Maupassant, da Editora Record, publicada em 2005. As Grandes Paixões difere da coletânea anterior porque traz 23 histórias (incluindo duas versões diferentes do clássico O Horla) divididas em quatro seções temáticas: As pequenas manobras, Por trás da máscara, A loucura e a alienação e, por último, As libertinas ingênuas. A editora não se preocupa em apresentar, no volume, uma mínima biografia do tradutor (também responsável pela seleção e por um ensaio que abre o volume), por isso informo eu aqui: Schlafman é jornalista, tradutor e ensaísta, autor de A Verdade e a mentira, livro de ensaios publicado pela Civilização Brasileira. Sua tradução para o mesmo trecho não traz alterações de monta, apenas outras escolhas de palavras em pontos-chave:
Durante vários dias os destroços do exército derrotado atravessaram a cidade. Já não eram tropas, mas hordas em debandada. Os homens tinham a barba comprida e suja, uniformes em farrapos, e avançavam em marcha cansada, sem bandeira, sem regimento. Pareciam todos acabrunhados, derreados, incapazes de pensamento ou resolução, marchando apenas por hábito e caindo de fadiga logo que paravam. Eram sobretudo reservistas, pessoas pacíficas, rendeiros tranqüilos, curvados sob o peso do fuzil; rapazolas alertas, fáceis de assustar e de entusiasmar, prontos para o ataque e para a fuga; depois, entre eles, alguns culotes vermelhos, restos de uma divisão esfacelada numa grande batalha; artilheiros sombrios lado a lado com soldados de infantaria; e, às vezes, o capacete brilhante de um dragão com passo arrastado que seguia aflito a marcha mais leve dos infantes.
Como vocês puderam ver, Schlafman atualiza algumas escolhas, como usar "reservistas" no lugar de "mobilizados", mas sua escolha de "aflito" para o dragão que segue a marcha e que encerra o texto me parece uma intervenção narrativa que não casa com o distanciamento do primeiro trecho. Se digo que o homem "segue penosamente" a marcha dos mais rápidos, estou falando da cena que descrevo, como uma câmera que a focasse. Se digo que ele segue "aflito", mandei o narrador para os recônditos íntimos da consciência do personagem e discorri sobre seu estado de ânimo — o que não parece combinar também com o "dragon au pied pesant qui suivait avec peine la marche plus légère des lignards" do texto original.
Mas vamos, para finalizar, à tradução de Amilcar Bettega — também sem apresentação no volume que traduziu. A Companhia não diz que Bettega é contista ele próprio, autor de Deixe o quarto como está e Os lados do círculo, este último premiado com o prêmio Portugal Telecom de Literatura. Tudo bem, agora eu já disse:
Durante vários dias seguidos escombros de um exército em retirada haviam atravessado a cidade. Não era uma tropa, mas hordas em debandada. Os homens tinham a barba comprida e suja, uniformes em farrapos, e avançavam com um ar combalido, sem bandeira, sem regimento. Todos pareciam arrasados, esfalfados, incapazes de um pensamento ou de uma iniciativa, caminhando apenas por hábito, e caindo de cansaço tão logo se detinham. Viam-se principalmente reservistas, gente pacífica, rendeiros tranquilos, curvados sob o peso do fuzil; pequenos moblots* alertas, fáceis de assustar e prontos ao entusiasmo, tão dispostos ao ataque quanto à fuga; depois, no meio deles, alguns culotes vermelhos, destroços de uma divisão esfacelada numa grande batalha; artilheiros sombrios alinhados com infantes dos mais variados; e, por vezes, o capacete brilhante de um dragão de passo arrastado que a muito custo seguia a marcha mais lépida dos soldados de linha.
* Apelido dado aos soldados da Garde National Mobile, formação militar francesa organizada de 1868 a 1871, em razão da Guerra Franco-prussiana, constituída principalmente por jovens que não tinham feito o serviço militar (N. E. F.)
Não sei o que significa o "N.E.F." da nota de rodapé, que reproduzi como está no livro. Ela se torna necessária pela opção de Amilcar de manter o vocábulo moblot que Maupassant usou no original, sem adaptá-la como fizeram os outros. Só que isso exige uma nota para dar conta da dimensão histórica do termo. É uma opção ideológica do tradutor: sacrificar um pouco a fluência (o Verissimo já escreveu que nota de rodapé é como sair da cama quentinha no inverno para ver se a porta está trancada) em nome da precisão: a nota, bem ou mal, recupera a "guerra" da qual se fala, a Franco-prussiana — Maupassant não pretendeu uma guerra alegórica, mas a guerra na qual havia servido (como oficial de abastecimento do exército francês). E no trecho que eu comentei antes, o tom volta a ser o da observação distanciada, o "penosamente" do primeiro trecho e "aflito" do segundo virou "a muito custo".
Adendo: Tinha terminado assim esse post depois de redigi-lo ontem, mas por sugestão do escritor Daniel Pellizzari ao ler o chamamento no twitter, estou incluindo abaixo o mesmo trecho da obra original para que aqueles que dominam o idioma francês tenham como comparar as escolhas feitas pelos três tradutores:
Pendant plusieurs jours de suite des lambeaux d'armée en déroute avaient traversé la ville. Ce n'était point de la troupe, mais des hordes débandées. Les hommes avaient la barbe longue et sale, des uniformes en guenilles, et ils avançaient d'une allure molle, sans drapeau, sans régiment. Tous semblaient accablés, éreintés, incapables d'une pensée ou d'une résolution, marchant seulement par habitude, et tombant de fatigue sitôt qu'ils s'arrêtaient. On voyait surtout des mobilisés, gens pacifiques, rentiers tranquilles, pliant sous le poids du fusil; des petits moblots alertes, faciles à l'épouvante et prompts à l'enthousiasme, prêts à l'attaque comme à la fuite; puis, au milieu d'eux, quelques culottes rouges, débris d'une division moulue dans une grande bataille; des artilleurs sombres alignés avec ces fantassins divers; et, parfois, le casque brillant d'un dragon au pied pesant qui suivait avec peine la marche plus légère des lignards.
E vocês? qual delas curtiram mais?

Bendito o que semeia livros. Quase não tínhamos livros em casa. Deus o livro, livrai-nos do mal. Neste espaço, o editor de livros de Zero Hora, Carlos André Moreira, partilha com os leitores informações, comentários, curiosidades, dicas, surpresas, decepções, perguntas, dúvidas, impressões, indiferenças e todas as outras tantas sensações proporcionadas pelos livros e pela leitura, esses prazeres tão secretos que merecem ser compartilhados.
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