Antes do lançamento do filme nos Estados Unidos, em dezembro, a comunidade da dança havia imaginado “Cisne Negro” como uma atualização do clássico “Os Sapatinhos Vermelhos”(1948), de Michael Powell e Emeric Pressburger. Eles vieram a descobrir que o filme tem mais em comum com “O Bebê de Rosemary” (1968), de Roman Polanski: um retrato apavorante da caminhada de uma mulher em direção à loucura, ambientado em um mundo de claustrofobia e dor.
Houve quem se sentisse provocado: Robert Gottlieb, crítico de dança do “New York Observer”, disse que o diretor Darren Aronofsky “recapitula todas as representações errôneas e ultrapassadas do balé”, e que o retrata como uma grande “viagem sadomasoquista”. De vomitar calorias a mais aos tormentos infligidos pelo coreógrafo sádico (com sotaque estrangeiro, é claro), Aronofsky utiliza todos os estereótipos. E as cenas de dança são brutais. Natalie Portman foi aclamada: ela passou meses treinando, o que permitiu fingir razoavelmente com o tronco, os braços e a cabeça. O material principal de dança, no entanto, é de dublês.
Mas o que bailarinos reais pensam de “Cisne Negro”? Cinco dos maiores nomes do balé inglês e o diretor artístico da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil assistiram ao filme e comentam suas impressões:
“É um filme preguiçoso”
Tamara Rojo, bailarina do Royal Ballet
“Tenho um grande problema com este filme usar uma atriz, não uma bailarina, para interpretar Nina: o diretor parece pensar que, em alguns meses, pode-se aprender uma profissão que toma anos apenas para entender, que dirá para ser bom. E no filme, supõe-se que Nina é incrível. É um filme muito preguiçoso, que dá espaço a todos os clichês do balé. Se você quer olhar para o lado negro da dança, faça-o com propriedade, não simplesmente largue uma cena em que uma bailarina vomita de repente. A mãe de Nina passa do clichê de uma mãe de bailarina – ela é uma psicopata. E as únicas pessoas que pareciam se divertir eram as que faziam sexo. Os filmes de balé a que os bailarinos voltam a assistir são aqueles que têm grandes dançarinos, como Mikhail Baryshnikov, Moira Shearer, Roland Petit e Zizi Jeanmaire. O balé não é algo que você pode adicionar, simplesmente. Os personagens são importantes por serem bailarinos – e se não são muito bons, não faz sentido.”
“Não mostra nada do prazer”
Lauren Cuthbertson, bailarina do Royal Ballet
“Queria não ser uma bailarina vendo este filme, para que pudesse vê-lo de outra perspectiva. Portman é uma atriz incrível, e posso ver por que ela se agarrou ao papel. Mas não importa o quão boa seja, é impossível que ela se pareça com uma bailarina profissional. E tenho certeza de que eles poderiam ter encontrado uma bailarina do calibre certo para fazer o papel. Algo da personagem parece correto. Todos somos obsessivos em como abordamos um novo papel: ele pode dominar nossos pensamentos por meses. E algumas de nós gostamos de usar tons pastel, às vezes. Mas no filme é tudo tão extremo. E Nina é uma menina tão boazinha, veste rosa o tempo todo e usa coque, mesmo na rua. O filme faz o balé parecer apenas sangue, suor, lágrimas e sacrifício. Claro, é um bom ponto de partida para um filme de horror, mas não mostra nada do prazer.”
“Faz a dança parecer ingênua”
Edward Watson, bailarino do Royal Ballet
“A coisa triste é que, enquanto o filme mostra a vontade que os bailarinos têm de se tornarem perfeitos, ele faz a dança parecer ingênua e risível. Não mostra por que o balé é tão importante para nós – por que queremos nos esforçar tanto. A melhor parte é a sequência de abertura, em que você vê Nina completamente envolvida na dança. Não acho que Portman se saiu mal: ela tem um bom pescoço, expressão facial e foco. E o filme acerta sobre o nível de estresse na profissão. Eu tive este tipo de sonho, em que perdia apresentações e ouvia a música, mas não conseguia chegar ao palco em tempo. De outro lado, parece que eles pegaram todos os clichês sobre balé e os amontoaram em um filme. Já vi alguns coreógrafos fazendo joguinhos com os bailarinos sobre quem eles vão escalar, mas nunca com essa intensidade. Um dos clichês que não foi tão contemplado foi a implicância. Pensei que haveria bailarinas se empurrando escada abaixo.”
“Tantas cenas são exageradas”
Elena Glurdjidze, bailarina do English National Ballet
“Fiquei um tanto chocada com o filme; não era nem de longe o que eu esperava. Acho que Portman se saiu bem para alguém sem treinamento. Ela não parecia estar fora do lugar na barra, e eu achava difícil dizer quando ela estava dançando e quando era a dublê. Mas tantas cenas são exageradas. E não reconheci nada sobre o balé “O Lago dos Cisnes”. Quando me preparava para ser Odile (o cisne negro) pela primeira vez, uma grande bailarina do Mariinsky disse que eu devia ser sedutora como um gato, mas tudo no contexto da coreografia. Sim, você tem que usar sua imaginação para incorporar um papel – mas não como Nina. Devo dizer, apesar de tudo, que gostei da maquiagem que fizeram nela. Natalie ficou incrível.”
“Odiei o diretor do balé”
Cassa Pancho, diretora artística do Ballet Black
“Você consegue notar que eles fizeram alguma pesquisa. Alguns detalhes, como as unhas do pé quebradas e como ela trabalha nas sapatilhas, marcando a sola e quebrando a ponta, eram corretos. E já vi bailarinos ficarem paranoicos, como Nina, quando perdem um ensaio e descobrem que alguém os substituiu – embora, obviamente, não ao ponto de empurrá-lo em direção ao espelho e puxá-lo para o banheiro pelos tornozelos. Odiei o diretor do balé. Ele é ridiculamente paternalista e implicante, como na cena em que entra na aula e começa a contar a história do Lago dos Cines batendo nos ombros dos bailarinos que não vai usar – se eu tentasse fazer isso, minha companhia me imobilizaria no chão e me mandaria para o hospital. A personagem mais realista é Lily, que fuma e se diverte. Mas, mesmo com ela, há detalhes incorretos, como quando ela ensaia com o cabelo solto. É outro clichê: ‘Olhe para mim, estou tão relaxada porque não prendo meu cabelo em um coque!’. Claro, é um filme de horror, ele deve ser extremo. Houve um feedback incrível no Twitter, mas o que a maioria das pessoas diz é: não se preocupe com o balé – vá pelas cenas de lesbianismo e pelo horror.”
“Foquei na mensagem que foi passada.”
Sérgio Lobato, diretor artístico da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil
“Gostei do filme. Não vou entrar no mérito se tem uma linda história ou se a fotografia é bonita. Foquei mais na mensagem que foi passada e que mostra a história de uma bailarina e não de todos os bailarinos, porque não dá para generalizar. Esta mensagem chama a atenção para que isso não ocorra e mostra que o bailarino precisa, junto com a família, viver, ser informado e não estar alienado a um único movimento. O artista necessita, não somente de uma técnica, mas de arte, de interpretação nos movimentos. Muita coisa do que foi mostrado acontece na dança, mas não podemos generalizar. Por exemplo, existe o medo da bailarina e a insegurança. A cobrança da mãe, que coloca suas frustrações sobre a carreira da filha, também é verdadeira e não só no balé, mas em diversas profissões. O que marcou é que, tanto no balé quanto na vida, nem só a técnica é determinante para a excelência. Há outros fatores que precisam ser levados em conta para se chegar a um resultado positivo. Há coisas exageradas, mas em toda montagem podemos ver coisas parecidas, como a cobrança do diretor, a busca da melhoria do próprio artista, a ansiedade. Este filme mostra uma parte do mundo do balé, para ter uma história de alegrias teria de ser feito um outro filme”.
TRADUÇÃO: FERNANDA GRABAUSKA
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