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Marco Dormino , EFE

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2 de junho de 2009. | N° 422AlertaVoltar para a edição de hoje

ARTIGO

O livro proibido, por Izaías Freire e Jaciara da Silva*

O recente episódio do recolhimento do livro “Aventuras Provisórias”, do escritor catarinense Cristovão Tezza, das bibliotecas das escolas estaduais, sob a alegação de que o livro é inadequado para alunos do ensino médio por conter linguagem chula ou alguns trechos que descrevem relações sexuais, nos fez lembrar de como vários escritores já tiveram obras censuradas ao longo da história.

Durante muitos anos, na Igreja Católica, existiu o famoso “Index Librorum Prohibitorum”, índice dos livros proibidos. Ele surgiu durante a Inquisição e tinha como meta barrar o avanço das influências nocivas à fé cristã. Sob o domínio do Santo Ofício, vários pensadores, romancistas e poetas tiveram seu nomes indexados na lista proibida: Hobbes, Hume, Descartes, Milton, Flaubert, Balzac, Sartre, para ficar em alguns exemplos. Numa das últimas atualizações do Index em 1948, continha cerca de 4 mil títulos proibidos. A censura da Igreja se assentava sobre a justificativa da “não-corrupção dos fiéis”.

O que nos espanta no contexto escolar entretanto, é a rapidez das determinações fundadas em moralismos, em concepções religiosas que acabam interferindo no processo educacional que deveria ser pautado por uma postura laica. É assustador o que pensam muitos educadores quando o assunto é sexualidade, o velho tabu puritano que se arrasta por anos na educação e que torna um livro de literatura sua mais recente vítima. Em grande escala, posturas como esta levam a educação brasileira aos patamares em que se encontra.

Lemos o livro “Aventuras Provisórias” e não consideramos que tal censura seja justificada. Nada do que o narrador usa em termos coloquiais na sua prosa que nossos alunos não ouçam em filmes, em cada esquina, nos shoppings, em casa (principalmente por meio da internet) e até mesmo no ambiente escolar. O livro instiga para uma reflexão do modo de vida das personagens e de como ele se reproduz na linguagem (questão de verossimilhança). O protagonista e narrador avisa logo no início que se trata de uma tragédia. Tragédia também vive nosso sistema educacional míope para a realidade social em que nos encontramos. Em vez de ser trabalhada, muitas vezes é negada ou ignorada.

Que tem “Aventuras Provisórias” de tão excepcional no quesito linguagem “amoral”? O estranho é que não deram o mesmo tratamento a Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca, João Ubaldo Ribeiro, Fernando Sabino, Jorge Amado, Érico Veríssimo etc., que mantêm há muito tempo seu espaço nas bibliotecas das escolas estaduais. Nunca foram lidos? Caso sejam lidos, serão também indexados no rol dos proibidos?

Lamentamos o episódio envolvendo a censura da obra do escritor catarinense mais premiado no último ano, com projeção nacional e internacional e ironicamente proibido em seu Estado natal.

*Professor de história da rede pública estadual e particular e professora de língua inglesa, portuguesa e literatura da rede pública estadual

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