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Tragédia no Haiti

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Marco Dormino , EFE

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31 de maio de 2009. | N° 420AlertaVoltar para a edição de hoje

CONFLITO HISTÓRICO

Como nos primórdios da civilização

VIAJANTE CONHECEU DE PERTO O CONFLITO HISTÓRICO E SANGRENTO ENTRE OS HUTUS E TUTSIS, EM RUANDA

Chamaram-me pelo nome, porque todos sabiam que eu era casado com uma tutsi. A notícia da situação do meu vizinho, um tutsi também, de 70 anos, espalhava-se, o pessoal esperava. Ele colaborou com a fuga de um grupo de crianças. O pessoal estava excitado porque tinham matado umas pessoas horas atrás. Alguém disse a mim diante da plateia: ‘Jean, se quiser salvar a vida de sua esposa, tem que cortar este homem agora. Ele é um farsante, mostre-nos que você não é dessa espécie’. Essa pessoa se virou e deu uma ordem: ‘Tragam uma faca para ele’. Eu, do meu lado, tinha escolhido minha mulher por amor à sua beleza; afeiçoada a mim, eu sentia muita pena de perdê-la. E quanto ao meu vizinho, foi um senhor que já me ajudou financeiramente e me confortou quando perdi minha mãe. Foi um pai para mim. A multidão foi engrossando. Peguei o facão, dei um primeiro golpe. Quando vi o sangue borbulhar, levei um susto, recuei um passo. Às minhas costas, alguém me deteve e me empurrou com os dois cotovelos para a frente. Fechei os olhos na gritaria e dei um segundo golpe, igualzinho. Liquidado. As pessoas aprovaram, ficaram contentes e se afastaram; eu recuei. Mais tarde, soube que o homem tinha se debatido por duas longas horas antes de morrer. Depois disso, nos acostumamos a matar sem tantos rodeios. Quase dois meses depois do início do massacre, um grupo aparece em minha casa. Dão ordem de matar minha esposa. Alegavam que eu não tinha atingido a meta de mortes naquele período. Neguei, e proibi-os de entrar em minha casa; os vizinhos, apavorados com a cena, suplicavam que obedecesse e sacrificasse a esposa. Me empurraram, e a degolaram com um golpe de foice, certeiro no pescoço. Fizeram-me a enterrar no meu próprio quintal”.

As crianças hutus cresceram sem fazer perguntas, ouviram todas as maldades sobre os tutsis. Acumulavam nos seus ouvidos que os tutsis tinham áreas de plantio demais e que os hutus passavam fome. Um hutu podia ter um colega tutsi, tomar cerveja com ele e tal, mas não podia confiar nele. Os hutus nunca gostaram dos tutsis por serem mais altos que eles e, por causa dessa vantagem, achavam que podiam mandar e ditar as regras. Nas escolas, os professores aguçavam as diferenças étnicas nos adolescentes, fazendo com que os tutsis se sentissem constrangidos e tímidos perante aos hutus”.

Estes são apenas dois de muitos depoimentos de cidadãos da etnia hutu, de Ruanda, um pequeno país localizado nos confins do meio do continente africano. Confesso que fiquei assustado com esses depoimentos – sempre tranquilos, como se fosse contar sobre um assunto do cotidiano em um bar. Em uma manhã de domingo, dia ensolarado, de uma igreja – um galpão coberto de zinco –, ouvia as vozes fortes do coral formado por mulheres. Era em uma cidadezinha a poucos quilômetros de Kigali, a capital do país. A missa começava logo e a igreja já estava cheia. Nas minhas costas, depois de uma centenária acácia, a verdadeira igreja, abandonada.

Começo a entender o que se passou ali quando observo o rombo entre a parede e a porta de metal provocado por uma explosão. No chão de cimento, muitas marcas: buracos provocados por tiros. Nas paredes carcomidas, o mesmo: marcas de tiros. Mas quando me aproximo, noto respingos de sangue no alto e até um metro de altura, manchas de sangue em abundância, parecendo jogadas com um copo. Uma mesa representava o altar. Sobre a mesa, uma toalha, tão cheia de sangue que mais parecia ter sido mergulhada. E o teto: era como se a igreja estivesse coberta por uma peneira.

“Não havia como não acertar alguém”, afirma uma senhora presente. Cinco mil pessoas foram mortas ali dentro, em um só dia. Depois que estouraram a porta, aí sim, entraram com os facões e inspecionavam um a um.

“Os visivelmente feridos estavam deitados sobre os bancos, os que não estavam feridos, tentavam se esconder em vão, debaixo dos bancos. Os hutus fizeram a festa aqui”, afirma a senhora, começando a chorar. Levou-me até a uma sala: dezenas de sacas com roupas das vítimas. Coloridos vestidos de meninas espalhados pelo chão. Todos tinham sangue e alguns rasgados, confirmando o que a senhora havia comentado: muitas meninas eram estupradas na frente de seus pais antes de serem mortas. No galpão nos fundos, pilhas e mais pilhas de caveiras, de todos os tamanhos. A naturalidade em poder tocá-las era tanta que pude pensar que estava em uma feira de artesanato.

Deixo o vilarejo composto de uma mistura de casas em taipa e cimento, todas cobertas com lata, e volto de bicicleta para a capital. Pelo caminho, cada metro de terra havia sido mexido. Nas partes baixas, os campos com arroz quase maduro, e nas altas, plantações de tomate intercaladas com bananais. Perdidas em meio a essas plantações e identificando outros pontos de extermínio, carcaças de carvão eram só o que restava de algumas igrejas. Se já estava perplexo com o que havia presenciado na igreja anterior, aqui pareceu que o genocídio continuava. Espalhados entre os bancos e corredor da igreja, envoltos por roupas esfarrapadas, esqueletos.

Havia centenas. Algumas caveiras estavam afastadas e tíbias, num outro canto, decerto separadas por cães e animais selvagens que se aventuram sobre os corpos. Tudo estava lá, do jeito deixado pelos matadores naquela tarde de primavera. Era uma cena difícil de compreender. Estarrecedora. Forte, com certeza. “A que ponto as pessoas podem chegar quando se mobilizam para pensar que outros seres humanos não são de maneira alguma seres humanos como eles?”, pensava. Os tutsis, acreditando que nas igrejas estariam a salvo, devido a também expressiva religiosidade dos hutus, acabaram se encurralando dentro delas. Foram enganados por muitos padres que viraram matadores. Relatos de sanguinários hutus apontam indignação com alguns refugiados dentro das igrejas: “Sabendo que vão morrer, por que não protestam, por que não pedem perdão?”

Por 12 semanas, os tutsis foram caçados e mortos, de idosos a bebês. Não se sabe ao certo o número de vítimas. Uns falam em meio milhão, outros em um milhão. Cerca de cinco tutsis em cada seis foram mortos nesse período. Tudo começou quando o presidente Habyarimana, um hutu moderador, foi assassinado com a explosão de seu avião. Os massacres começaram na mesma noite daquele 11 de abril de 1994 em Kigali e, em seguida, nas cidades do interior.

Mas qual o motivo do massacre? Afinal, as duas etnias falam o mesmo dialeto, moram nos mesmos vilarejos, rezam juntos e as diferenças físicas entre eles, embora ocasionalmente notáveis – como o nariz achatado do tutsi, são muito aleatórias. Os matadores não precisavam reconhecer as vítimas, pois as conheciam: num vilarejo tudo se sabe. Até em um passado não distante, ser um tutsi era status social. Uma espécie de casta. Quem tinha um pouco mais de terras ou cabeças de gado podia se considerar um tutsi. Dessa maneira, criou-se uma relação feudal entre as duas etnias. Coube aos hutus serem os vassalos dos tutsis. O distanciamento só aumentava. De um lado, as crescentes manadas de vacas, o símbolo da riqueza e do poder dos tutsis; de outro, os hutus, cada vez mais expulsos de suas já minguadas terras. Em 1959, ocorreu uma sangrenta revolta popular e os hutus foram ao poder e iniciaram um processo de marginalização da comunidade tutsi. Quem encorajou e estimulou os hutus para esta luta, foram os Belgas – Ruanda é uma ex-colônia belga.

Os tútsis, dominantes naquela época, falavam em independência e, tentando manter a condição de colônia, os belgas passaram a apoiar os hutus. Desde aí, um tutsi passou a ser apontado pelos administradores públicos como um cidadão conspirador, oportunista e parasita. Nesse país superpovoado e agrícola, sem nenhuma riqueza natural, as disputas por terras continuaram, e os tutsis sempre tiveram suas propriedades invadidas e seu rebanho atacado. Em 1994, já não se podia dizer que os tutsis se mantinham privilegiados economicamente. Nas duas etnias havia ricos e pobres, e 15% da população representavam os tutsis. Após o massacre também foram banidas as menções nos documentos de identidade que anunciavam a divisão étnica.

Na madrugada do dia da minha partida, uma movimentação no prédio onde estava hospedado, em Kigali. Quando abri a porta, havia na sacada dos fundos uns dez homens, concentrados no feixe da luz de pilha que passava pelos entulhos e telhados cercados por muro lá embaixo. “Ladrão”, diz um rapaz. “Estamos há horas procurando-o. Ele entrou nesse prédio para despistarmos, passou pela frente do seu quarto e pulou daqui.” Metade deles tinha um facão nas mãos. Nenhum policial no local. Amanheceu, o grupo ainda lá, de tocaia. “Vamos esperar, ele está escondido aqui”, comenta o mesmo rapaz que falei horas antes. De olhos arregalados, fez no ar, na altura do meu rosto, um sinal com seu facão em forma de xis. Entendi o recado. Encontrado o suposto ladrão, era o facão que faria a justiça. A história aponta e esta cena define: novos conflitos entre hutus e tutsis ainda virão e o hábito do facão continua imperando. Deixei Ruanda, sem saber que final teve o “ladrão” que pulou da sacada.

* Charles Zimmermann viajou por mais de 70 países e é autor de quatro livros relatando as viagens, “Nos Confins do Oriente”, “Estrada para o Grande Deserto”, “Terra Estrangeira e Deserto Feliz”. O site do autor é www.charlespelomundo.com.br

CHARLES ZIMERMANN* | JARAGUÁ DO SUL

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