Um ano tem 365 dias,
aprendi nas aulas de geografia. Meio ano, então, haverá de
ter a metade disso (utilizo um pouco do que aprendi nas
aulas de matemática): 182
dias (aproximadamente).
Há 182 dias o ano de 2008 começou. No primeiro dia de 2008 fez sol e havia restos de oferenda na areia da praia. A praia estava cheia no período
da tarde. A manhã estava
mais para pássaros.
Há 182 dias, João fez sua lista de metas para o ano de 2008. Mas, hoje, João nem se lembra mais do que anotou naquela folha de papel. E se João fosse procurar pela folha, não a encontraria, pois numa certa tarde azul, sua filha pequena fez dela um barquinho que naufragou numa bacia de águas tranqüilas.
Cecília, mais cuidadosa do que João, anotou seus planos
na agenda bonita de capa
dourada, presente do namorado. Os planos de Cecília ocuparam a primeira semana da agenda. Passados seis meses,
ela finalmente se dá conta de que, ao jogar fora a agenda quando findou o namoro,
jogou fora seus planos.
Pedro não fez nenhuma anotação, pediu saúde, que o resto a gente leva, com saúde tudo se ajeita. Pedro tem 80. Vestiu-se de branco no primeiro dia do ano, passeou, cumprimentou os vizinhos, comeu carne suína (mas não liga muito pra essas superstições). Pedro é uma rocha.
Rosana, neste exato momento, pára de ler a crônica e tenta lembrar dos planos que fez. Busca na memória, recorda que anotou num dos cadernos. Vai à estante da sala, procura entre a lista telefônica e os poucos livros. Lá vai Rosana consultar, avaliar. Ainda bem que Rosana costuma ler jornais e crônicas.
Bem longe daqui está Teresa. Teresa toma o café da manhã e se dá conta de que estamos no dia 30 de junho e de como o ano correu, parece uma lebre. Teresa se sente uma tartaruga. Não faz mal. Teresa vai cuidar das rosas e das gérberas no jardim. Ah, a cerejeira japonesa está florida. Não, não dá frutos, apenas flores. Teresa não se casou, não teve filhos. Apenas flores.
O nome do barco é "Esperança". Volta com pouco peixe. O pescador pesca por prazer. Um aqui, outro ali. Tem a vida ganha, porém módica. Os filhos todos casados. Foi com "Esperança" que ele colocou comida no prato da família. O plano é pescar, descansar e brincar com os netos.
Otávio, neste exato momento, calcula quanto conseguiu juntar de dinheiro. Acha pouco. Pensa num jeito de juntar mais no segundo semestre. Investe no agronegócio. Desmatou, vendeu madeira, criou gado, lucrou. O neto de Otávio não sabe falar direito, chama o vovô de "Otário".
A cronista não fez planos para 2008. Mas anotou na primeira página de sua agenda dois versos de Vinicius de
Moraes: "A vida é pra valer/
A vida é pra levar".