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8 de junho de 2008. | N° 67AlertaVoltar para a edição de hoje

Memória

Intermináveis cem anos

Centenário da Arte Brasileira é lembrado com a exposição da coleção Gilberto Chateaubriand

A mostra "Cem Anos de Arte Brasileira da Coleção Gilberto Chateaubriand" possibilita aos visitantes vislumbrar, num amplo espectro, a trajetória da arte brasileira por meio das obras de seus artistas mais significativos. Organizada em seis núcleos históricos, a exposição nos permite acompanhar, desde o ponto de vista histórico, estético ou conceitual, os momentos de ruptura e as grandes transformações da arte brasileira desde o início do século 20 até os dias atuais.

O núcleo modernista, primeiro da exposição, demarca um longo período que vai de 1910 até o final da década de 40, abarcando, portanto, desde as primeiras manifestações de ruptura com os cânones acadêmicos, com artistas como Anita Malfatti, e a introdução do expressionismo, Tarsila do Amaral, Rego Monteiro e a polêmica Semana de Arte Moderna de 1922, até a apropriação crítica do sentido do termo moderno presente nas obras de Segall, Ismael Nery, Goeldi, Guignard, Di Cavalcanti, entre outros, com as quais se sedimenta o modernismo, com características nacionais.

Os anos 50 trazem uma nova consciência cultural, política e econômica, própria do otimismo pós-guerra e da situação que o País atravessa com o segundo período do governo Getúlio Vargas e o início do governo JK. As obras dessa década, apresentadas pela coleção, apontam o momento em que a arte brasileira se liberta dos últimos resquícios do estilo acadêmico, como também das imposições restritivas do movimento modernista.

Da abertura da Bienal em 1951 à criação do grupo Ruptura, em São Paulo (1952), e do grupo Frente, no Rio de Janeiro, em 1954, até a publicação do Manifesto Neoconcreto em 1959, o clima artístico do País é de explosão da abstração geométrica. Simultaneamente à busca de uma linguagem universal, os artistas se esforçavam para definir uma linguagem própria para as artes visuais, promovendo a autonomia dos meios plásticos e, ao mesmo tempo, a criação de um vocabulário específico para a crítica de arte.

Artistas como Ivan Serpa,Samson Flexor, Franz Weissmann, Luis Sacilotto, Waldemar Cordeiro, entre outros, desenvolvem, na sua plenitude, os postulados do construtivismo. Por outro lado, imbuídos pela vertente informal do abstracionismo estão artistas como Iberê Camargo, Antonio Bandeira, Manabu Mabe, Tomie Ohtake, Fayga Ostrower, cujos trabalhos tendem a enfatizar o subjetivo, a sensibilidade, a liberdade e a invenção, não-desprovidos de rigor.

Os anos 60 trazem de volta a figuração e a contestação com o golpe militar. O artista surge como militante direto e deixa de ser o "ideólogo" de gabinete. No lugar da abstração e de suas possibilidades puramente estéticas, nasce uma nova função para a figura, bem distinta daquela ocupada nas belas-artes ou mesmo no modernismo, com ênfase nos problemas da relação arte-política.

Essa nova proposta convive com as experiências sensoriais dos artistas Hélio Oiticica e Lygia Clark, em que o objeto sai do campo da contemplação e passa a ser um objeto que requer a participação do espectador.

Apoiados na herança de Duchamp, os artistas que surgem nos anos 60 criam dissociações e "desidealizações" que ultrapassam o campo da forma puramente estética e passam a operar em um espaço conceitual e social, explorando novos materiais e processos técnicos, muitas vezes efêmeros e inconsistentes. Os artistas desta década, inspirados pela arte norte-americana, incorporam também a iconografia urbana e publicitária da pop art em suas produções.

O movimento conhecido como Nova Figuração, surgido com a mostra Opinião 65 - de artistas como Antônio Dias, Rubens Gerchman, Nelson Leirner, Carlos Vergara e Roberto Magalhães - apresentou, de forma organizada, o imaginário da pop art assimilado em suas obras, contaminado pelas questões políticas e sociais resultantes da ditadura militar em que vivia o País.

O experimentalismo e seus desdobramentos, já vivenciados em anos anteriores, são a tônica do quarto núcleo da exposição. O objeto do cotidiano passa à categoria de objeto artístico; de objeto comum; a objeto extraordinário.

Os anos 70 substituem o ativismo característico dos anos 60 pela reflexão; a emoção pela razão, o objeto pelo conceito (arte conceitual). A desmaterialização da arte ganha força no País e surgem artistas que, por meio da performance, da instalação ou da multiplicação de imagens por meio de novos meios tecnológicos, encetam um procedimento de "volta ao museu" recolhendo imagens e/ou procedimentos ligados à antropologia, à história da arte e aos meios de comunicação de massa.

Parte significativa da produção artística brasileira desta década assimilou, de modo explícito, a palavra à obra, ou usou-a nos títulos como conceitos-chave para a sua leitura. Questões inseparáveis de um contexto sociopolítico e de questionamentos de valores marcam, por exemplo, a obra de Artur Barrio, Anna Bella Geiger e Antonio Manuel.

NAIRA ROSSAROLLA SOARES FRAINER*

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